Diário de quarentena #1: O tempo

Diário de quarentena #1: O tempo
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“O tempo do passado é presentificado na memória, e só existe no presente”

Ouvimos com uma certa frequência que nosso tempo por aqui é valioso e o que nos resta é escolher o que fazer com ele. Não vou negar a incrível oportunidade (e acaso e improbabilidade…) que é poder viver, com todas suas delícias e dores. No entanto, quem disse que a única coisa que devemos fazer é escolher com uma certa sabedoria o que fazer com o nosso tempo estava ignorando o fato de que, muitas vezes, não somos senhores do nosso destino, já que existem um milhão de variáveis que nós não controlamos. Nem devemos cometer a audácia de tentar controlá-las. Não é natural e só gera frustração.

Recentemente, me deparei com o episódio “New York, New York, New York” de This is Us no qual Rebecca (Mandy Moore) começa a entender o que o Alzheimer poderá significar para ela e se dá conta de que sua vida sempre foi pautada por inúmeros “dá próxima vez…”. O tal “da próxima vez” é familiar por aqui, “dá próxima vez que vier a está cidade eu visito tal lugar”, “dá próxima vez eu digo como aquela pessoa fez eu me sentir”, “dá próxima vez não vou pensar duas vezes” e por aí vai. Mas a gente esquece que a vida é imprevisível. Tá ai uma pandemia que não me deixa mentir.

E é aqui que está uma das maiores belezas da existência: o desconhecido. Não controlamos o amanhã, nem a próxima vez, nem as outras pessoas, só temos responsabilidade por nós mesmos e incessantemente nem isso.


Esses últimos dias em isolamento social não estão sendo fáceis e posso afirmar com uma certa certeza que está sendo assim para muitos de nós. É mentalmente exaustivo ficar confinado a um espaço limitado e, principalmente, dividir este pouco espaço com outras pessoas. Não vou nem me aprofundar que fica ainda mais difícil quando temos parentes, pais, amigos, colegas de trabalho que parecem não estar entendendo a real gravidade do momento histórico que estamos vivendo e insistem em permanecer levando suas vidas normalmente. E, claro, tal comportamento é validade publicamente por um tal presidente que parece ter perdido sua sanidade.

Quando a gente se isola parece que o tempo não passa. Depois, ele passa rápido demais e quando vemos lá se foram 45 dias. E todos os cursos online que queríamos fazer? E todos os livros? E a dissertação de mestrado para organizar e começar a produzir? E os filmes? Bom, esses últimos estão em dia.

Não dá para ser produtivo o tempo todo. Os silêncios, os intervalos e o ócio também são importantes. Falando nisso, aproveitei a janela infindável de ócio que esses dias proporcionaram para assistir a dois filmes muito antigos, mas muito emblemáticos do terror: Os Outros e O Sexto Sentido. Me surpreendi com eles.


Preciso dizer que, por mais que adore filmes do gênero, sofro muito todas as vezes que vou assisti-los. Me remexo tampando olhos e ouvidos até que a história acabe e eu consiga encerrar dentro de mim as ansiedades causadas por momentos de tensão. Porém, estes dois títulos foram uma experiência incrível e despertaram sentimentos que não acessava já há algum tempo. Sentimentos parecidos com assistir as produções do Studio Ghibli pela primeira vez.

Vou poupar vocês das sinopses desses filmes que já fazem parte do nosso imaginário popular e saltar para o que me deslumbrou: os momentos de silêncio.

Nenhum desses dois filmes insistem em nos pegar desprevenidos para então nos assustar. Muito pelo contrário, eles nos assustam utilizando a nossa atenção. Nos prendem a uma história tão bem narrada que vamos coletando os pedacinhos do quebra-cabeças que são deixados em cenas que não se privam do silêncio e não se intimidam por uma suposta repulsa ao tempo perdido. Por exemplo, nO Sexto Sentido, quando o Dr. Malcolm Crowe (Bruce Willis) vai até o sótão da sua casa em busca de um velho dicionário de latim para entender a frase que Tommy Tammisimo (Trevor Morgan) estava lhe dizendo. Lá, ficamos em silencio enquanto o psicólogo procura as palavras para entender a sentença toda. E, neste momento, vamos construindo a lógica das cenas com as informações que o filme nos forneceu.

Enfim, quando acreditamos ter juntado todas as peças, é outra imagem que se forma, uma completamente diferente da que construímos com os mesmos indícios. E passamos por um momento de reviravolta e catarse de emoções, elementos tão caros a Aristóteles quando reuniu em sua Poética os princípios que governam boas histórias.

O que Aristóteles não previa era a modernidade e a pressa que adquirimos para receber informações, juntá-las e depois jogar elas fora. Mas, a longo prazo, isso esvazia a nossa existência de sentido. Não precisamos de milhares de informações, precisamos do que é útil para fazer nossa vida completa. Lá vou eu filosofar… E o que é utilidade? Isso eu não sei dizer…

Me agarro a certeza de que preciso de tempo, para pensar, para processar informações, para absorver o mundo, para quem entender que eu sou, para ouvir o outro, entender quem são os outros e como eles fazem parte de mim, e por aí seguimos…


Habitar o tempo

Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.

E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.

Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
para habitá-lo: só no passado, morto.

– João Cabral de Melo Neto (1965)


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