Por que seus personagens favoritos de Star Wars jamais apoiariam Bolsonaro

Por que seus personagens favoritos de Star Wars jamais apoiariam Bolsonaro
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Não há como ser fã de Star Wars e tolerar Bolsonaro. Se esse é o caso, um dos dois não foi muito bem compreendido: ou a obra, ou o presidente

Não é à toa que em uma manifestação contra Bolsonaro, lá no passado remoto de 2018, em Porto Alegre, Christian Gonzatti erguia um cartaz comparando o agora eleito presidente à Voldemort e as mulheres participantes do protesto à Hermione. Várias das obras mais populares da cultura pop das últimas décadas abordam o tema da repressão de um governo autoritário e da luta contra o fascismo.

Quando afirmo que é impossível ser fã de Star Wars, Harry Potter, Jogos Vorazes, ou X-Men e tolerar Bolsonaro, digo que não há como compreender a mensagem dessas obras e aceitar as bizarrices do governo Bolsonaro, ainda que como “última saída”. A gente sabe que a eleição deste presidente foi resultado de um processo histórico de descrença e “aniquilação” de um governo de conciliações. Na história mundial tivemos inúmeros exemplos de como governos que buscam conciliar interesses privados e populares acabam caindo em descrédito para os dois campos. É o velho ditado: “quem fica em cima do muro uma hora cai”. Enfim, isso é assunto para um outro momento…

Aqui, o ponto crucial é que invariavelmente essas obras nos convidam a empatizar com o lado popular das disputas, personificado em um herói, que deverá enfrentar várias dificuldades, para, no fim da jornada, alcançar, a um só tempo, a maturidade (a nível de desenvolvimento pessoal e a nível de sociedade) e a derrota da/o opressora/o, com o advento de um regime democrático e mais livre, baseado na igualdade e na liberdade.

Vamos falar apenas de Star Wars, por enquanto.

Deus tá vendo você torcer por eles e defender as medidas genocidas do presidente em meio a pandemia.

Star Wars é talvez o exemplo mais clássico dessa narrativa para quem cresceu entre as décadas de 1970 e 1990. A trilogia clássica possui um equilíbrio difícil de atingir entre personagens bem desenvolvidos: filme de ação pipoca, inovação tecnológica (que atraiu o público para um gênero que ainda era muito ”filme B” para ser mainstream) e trama repleta de consciência política – pois, afinal, ”toda história sci-fi é, na verdade, uma crítica à nossa própria realidade”.

Não, isso nunca foi sobre um Império Galáctico. 

Nessa história impossível, Luke teria lutado contra um Império justo e que não praticava abusos. O Império, por sua vez, estaria fazendo um trabalho muito melhor de manter a ordem na galáxia do que a República e os Jedi de antigamente. E por fim, os Jedi não passariam de um bando de arruaceiros que apenas defendiam o pluralismo com a intenção de causar instabilidade na galáxia, dar um golpe Jedi e instaurar um “comunismo Jedi”.

O grand finale dessa trilogia impossível seria o momento em que Luke abandona o discurso pacifista e desarmamentista e decide assassinar o Imperador e governar a galáxia junto a Darth Vader. Ambos decidiriam ceifar a liberdade dos cidadãos em prol da segurança e da ordem, enquanto eliminam adversários políticos – entre eles, vários dos que os ajudaram a alcançar o poder. Luke então convenceria Leia a juntar-se ao lado sombrio da Força. Leia se declararia uma mulher de bem, em prol da família, recatada e “higiênica” abdicando de seus direitos em prol de seu marido, Han Solo. Han Solo proibiria Leia e trabalhar, de falar com outros homens, e, eventualmente, passaria a ameaçá-la e a agredi-la. Leia pediria asilo em outro planeta buscando escapar das ameaças de morte de Han, denunciando que este sonegou alguns milhões e roubou seu cofre. Han Solo, enquanto isso, vive ”comendo gente” em seu apartamento funcional pago pelo povo, ainda que possua um imóvel próprio em Coruscant e… bom, dá para imaginar como a história seguiria. Enquanto isso, os rebeldes receberiam punição exemplar – sem direitos humanos, porque “não são humanos direitos”.

Exemplos de rebeldes torturados durante a ditadura brasileira por oferecerem grande risco à pátria. Caso não esteja claro: essas imagens fazem parte do registro do DOPS e sim, essas crianças foram presas com a idade que apresentavam nas fotos. Muitas foram levadas para ver a sessão de tortura dos pais, para pressioná-los. 

Não é à toa que Mark Hamill, em 29/09/2018, aderiu ao movimento #elenão, afirmando que as mulheres brasileiras merecem algo muito melhor.

O motivo pelo qual permanecemos firmes no #forabolsonaro é porque acreditamos que se é necessária uma solução para a política no Brasil, Bolsonaro não é essa solução. E isso já ficou claro demais com os últimos acontecimentos (leia ‘últimos acontecimentos’=desde que essa figura surgiu em meados de 2004).

Eu afirmo que é impossível imaginar o seu herói de infância, Luke Skywalker, compartilhando de qualquer pensamento com Bolsonaro. Você pode argumentar que ele é necessário para evitar que a esquerda tome o poder e domine o país. Você pode argumentar que seus filmes favoritos não têm nada a ver com política, que são só entretenimento. Mas não são. A arte nunca é apenas entretenimento. Mesmo um filme pipoca como Star Wars. Luke jamais argumentaria que a história de Star Wars é uma fábula muito linda, mas que na vida real ele acredita ser necessário apoiar o Imperador Palpatine, pois o Imperador é a única saída para colocar ordem na galáxia. Que é bem verdade que o Imperador abusa da violência, mas que no fundo ele é mal interpretado. Que o Imperador despreza mulheres, mas isso não importa tanto assim. Que o Imperador manda atirar para matar, mas que só é assim para defender a Família Tradicional Galáctica. Que os Jedi pregam o amor mas são os vilões. Que pouco importa que o Imperador não entenda nada de economia, porque existem economistas para fazer o trabalho por ele – mesmo quando o Imperador vem a público rebater tudo que seu economista diz. Que pouco importa que os empresários da Galáxia tenham sido traídos pelo Imperador quando este assumiu o poder, porque os empresários o apoiaram acreditando que haveria Império Mínimo e depois descobriram que o Imperador passou a aumentar o Estado para viabilizar a militarização do Império.

É impossível imaginar Luke defendendo quem falou que seu filho não vai namorar uma negra “porque foi bem educado” e que preferiria que seu filho morresse a ser gay. Vocês conseguem imaginar Luke (ou Yoda, ou Obi-Wan) dizendo “a Rebelião se mostrou corrupta, então o Império é um mal necessário e a Ditadura de Palpatine é o único caminho”? Eu não. Li um comentário de que a diferença entre obras como Star Wars e Harry Potter é que o bem e o mal na ficção são muito bem delineados, e aí é fácil de combater o mal, porque os mocinhos sabem que estão do lado do bem. E que isso é diferente do que ocorre no Brasil, em que bem e mal estão todos misturados. Mas já reparou que não é bem assim? Em Star Wars, por todo lugar há centenas de figurantes que não estão nem ao lado do Império, nem ao lado da Rebelião. Talvez para eles o limite entre os bons e os maus não esteja tão claro. Talvez só esteja tão claro para nós justamente porque acompanhamos a jornada dos heróis dos filmes.

Esquema detalhando os principais grupos em Star Wars: Líderes do império; Pessoas a serviço do império; povo que vive sua vida normalmente e não está nem aí para a Aliança Rebelde (o maior grupo); Membros da Aliança Rebelde; Líderes da Aliança Rebelde.

Se voluntários se dispusessem a entrevistar algumas Famílias Tradicionais Galácticas em Coruscant para saber qual a opinião deles sobre os Jedi e sobre a Aliança Rebelde, posso garantir que muitos avaliariam que o governo do Imperador Palpatine estava correto em estabelecer a ordem na Galáxia, e que a sua dureza era um mal necessário diante da ameaça rebelde (na sua opinião, uma quadrilha de bandidos pronta para destruir todos os valores da Galáxia). Pouco importa que Palpatine não defende minorias – quem se importa com os direitos, sei lá, do povo da areia quando estamos falando da proteção de todo um Império?

Os primeiros dois grupos são a "ordem na galáxia", o grupo maior é você, o grupo da aliança rebelde são integrados por Luke, Leia e Han.
Não é fácil se rebelar contra um sistema. É por isso que os heróis são Luke, Leia e Han, membros de uma minoria que preferiu aceitar esses riscos a viver suas vidinhas confortavelmente. 

Os heróis de Star Wars – possivelmente seus heróis de infância, como foram os meus – são defensores da paz, dos indefesos, das minorias, e jamais, isso eu posso garantir, jamais apoiariam o candidato que defende a tortura, o racismo, o ódio contra LGBT+, a misoginia e ainda afirma que tudo bem um punhado de milhares de pessoas morrerem para o “bem da economia”.

Junte-se a nós. Seja a resistência.

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