Como a saga Harry Potter se relaciona com os comentários de J.K. Rowling no Twitter?

Como a saga Harry Potter se relaciona com os comentários de J.K. Rowling
Foto: Carlo Allegri/Reuter

A autora e sua resistência à críticas importantes

Por diversas vezes, J.K. Rowling foi criticada ao fazer comentários transfóbicos em seu Twitter. Críticas muito merecidas, à propósito. O assunto traz à tona discussões a respeitos de como seus livros lidam com esses (e vários outros!) temas.

É inegável que Harry Potter é uma obra incrível. A história, dividida em sete livros, sobre o menino órfão e bruxo que venceu o Lord das Trevas e passou grande parte da sua infância embaixo de uma escada, está repleta de simbolismo e lições importantes sobre confiança, companheirismo e amizade. Por todas as suas páginas, J.K. escreveu sobre os preconceitos que existem no mundo bruxo com tudo o que é “diferente”, ou seja, os nascidos trouxas, gigantes e duendes, além de ter colocado em diálogos falas relevantes sobre a própria existência humana que ressoam até hoje.

Porém, um olhar mais atento e amadurecido mostra como a obra possui pontos que merecem discussão e precisam ser apontados que se relacionam com as postagens da autora nas redes sociais.

Recentemente, Rowling foi acusada (mais uma vez) de transfobia ao, resumidamente, afirmar que “sexo é real”, o que implica em “mulheres trans não são mulheres”. A autora comentava uma matéria que citava “pessoas que menstruam” e afirmou que “tenho certeza que costumava existir uma palavra para essas pessoas”, indicando que a matéria deveria ter escrito mulheres.

Só que definir que apenas mulheres menstruam deixa de fora os homens trans que também menstruam e exclui mulheres que, por algum motivo, não menstruam mais. Após o comentário, a autora recebeu diversas críticas, incluindo do protagonista da sagaDaniel Radcliffe.

Ao se defender, J.K. afirmou que ama as pessoas trans e já pesquisou muito sobre o tema, mas que, para ela, “apagar o conceito de sexo remove a capacidade de muitos discutirem suas vidas de modo significativo”. A autora disse ainda que está ao lado das pessoas discriminadas por serem trans, ao mesmo tempo em que sua vida “foi moldada por ser mulher”

Reunindo todas essas falas, fica evidente que J.K. Rowling baseia seus conceitos a respeito de sexo e gênero em suas próprias experiências de vida, que consequentemente não leva em consideração pessoas que vivem e se expressam de maneira diferente da dela. Ela declara ter estudado bastante sobre o tema, mas estudar a respeito ou ter amigos da comunidade LGBTQ+ não necessariamente permite alguém falar desses temas como se fossem experiência própria. No limite, o que esses discursos fazem é uma falsa oposição entre o movimento feminista e o movimento de mulheres trans, o que ão contribui em nada para o debate e reforça vários esteriótipos de gênero que pessoas trans enfrentam todos os dias para proteger as próprias vidas.

É preciso ter a mente aberta e saber ouvir para entender conceitos e experiências que a gente nunca viveu na pele, mas são a realidade de muitas pessoas.

O mundo bruxo

J.K. baseia as falas em suas experiências de vida e faz o mesmo com a franquia Harry Potter. Na escola de magia e bruxaria de Hogwarts, os alunos são selecionados pelo chapéu seletor para quatro diferentes casas, de acordo com suas habilidades e aspirações (Grifinória, Sonserina, Lufa-Lufa e Corfinal) e, dentro dessas casas, há os dormitórios para meninas e meninos separadamente.

Em nenhum ponta da história foi discutido se algum aluno ou aluna se sentir desconfortável com essa divisão, por exemplo. E você pode atpe estar pensando que, como não era o tema central da narrativa, seria difícil encaixar tal discussão. Seria mesmo? Vimos tantas outras discussões, já citadas acima, para desenvolver outras personagens… Não teria sido interessante incluir essa questão também?

O tema esbarra em outro problema da obra de J.K. Rowling: a falta de personagens da comunidade LGBTQ+. Embora tenha afirmado posteriormente que Alvo Dumbledore era gay e apaixonado pelo bruxo das trevas Gerardo Grindelwald, isso nunca foi colocado abertamente na obra. O diretor de Hogwarts nunca falou sobre o tema em sete livros e, apenas agora com o lançamento do filme de Animais Fantásticos, há alguma indicação do romance, mas ainda nada tão direto. Não há dúvidas que a sexualidade e gênero são pontos importantes na vida dos personagens e deveriam ser colocados naturalmente nas obras, como questões que tiverem de enfrentar.

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E esse não é o único problema de Harry Potter se olharmos mais a fundo. Nas descrições da família Dursley, por exemplo, Rowling frequentemente detalhou os atributos físicos de Duda, destacando como seu corpo sobra para fora da cadeira e o comparando com porquinhos, mesmo tratamento dado ao Tio Válter. Não seria mais interessante se ela falasse mais sobre as personalidades de ambos, descrevendo como eles tratavam mal todos que eram diferentes, incluindo Harry? Destacar atributos físicos de pessoas acima do peso como se fossem defeitos não ajuda em nada um grupo que já é frequentemente atacado, como também acontece com a comunidade trans.

Harry Potter não vai deixar de habitar o coração dos fãs (incluindo o meu). O mundo mágico que J.K. criou foi por muitas décadas o lar de milhares de crianças e adolescentes que se sentiam deslocados no mundo real e encontraram em Hogwarts um lugar onde poderia ser aceitos.

Se a obra, publicada entre 1990 e 2000, segue imutável e como um retrato de seu tempo, certamentos nós não. Não é possível reescrever Harry Potter e isso nem deveria estar em questão, mas assim como nós podemos evoluir e aprender mais a cada dia, conhecendo o mundo em que vivemos e as dores e dificuldades de pessoas com as mais diferentes realidades, é preciso apontar questões que podem ferir muito gente. Se nós, como fãs, somos capazes de olhar com carinho e ao mesmo tempo com franqueza para essa saga, já passou da hora de J.K. Rowling fazer o mesmo.

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