His Dark Materials | O que a HBO está fazendo com a série é um sonho de todo fã de livros

His Dark Materials: o que a hbo está fazendo com a sério é um sonho para todo fã de adaptações
HBO/Divulgação

Fronteiras do Universo e sua adaptação inteligente

A participação de Andrew Scott em Fronteiras do Universo (His Dark Materials), da HBO, não só preenche um vazio deixado por Fleabag, mas também significa que a adaptação dos romances de Phillip Pullman está fazendo algo que todo fã de livros sempre sonhou: um planejamento completo da história. Ao incluir elementos dos dois primeiros livros da saga, A Bússola de Ouro e A Faca Sutil, a adaptação da HBO demonstra ter um objetivo em mente e se preocupa em adaptar a trilogia de Pullman de forma integral, com uma visão global da narrativa.

Para continuar essa discussão, é inevitável entrar no debate acerca do conceito de ‘adaptação’. Quando penso no que mais foi incômodo nos filmes de Harry Potter, não foi só o fato de que algumas informações dos livros terem sido deixadas de fora. Mas, sim, que cada livro foi adaptado individualmente, sem uma preocupação real com o todo da saga. Partindo de um ponto de vista de narrativa isolada, pode parecer bom deixar de fora informações sobre os pais de Neville na Ordem da Fênix, por exemplo… No entanto, o garoto assassina Nagini em Relíquias da Morte e a motivação no filme para isso é ausente.

É claro que a adaptação deve se sustentar por si só, conquistando independência em relação ao material de origem, mas para isso é necessária uma estratégia que mantenha a obra cinematográfica (ou a obra destino, no caso de outras mídias adaptadas) coesa em si mesma. É preciso construir um tipo de continuidade estética e narrativa.

No caso de Harry Potter, é claro que nem todos os livros já haviam sido publicados quando os filmes começaram a ser filmados, mas J.K. Rowling é mestre em planejamento e trabalhou em todas as produções, inclusive, alguns fatos cruciais precisaram ser revelados aos produtores e atores envolvidos nas gravações.

De volta a His Dark Materials, vi algumas reclamações de que a série até agora está em um ritmo apressado, mas acredito que mudanças de ritmo e estrutura narrativa são um bom sinal. Cada mídia possui uma estrutura diferente por natureza e, consequentemente, as regras de cada veículo também serão diferentes. Os filmes, por exemplo, são escritos com três atos em mente, “começo, meio e fim”. A maior dos episódios de séries de drama de uma hora possui estrutura de cinco atos com três intervalos comerciais e, ainda que a HBO não faça intervalos, programas como Fronteiras do Universo ainda aderem a essa estrutura.

HBO/Divulgação

As trilogias são divididas em três livros – obviamente – e cada livro compõe um capítulo da história. Essas estruturas de organização ditam como as narrativas serão guiadas mais do que a gente pensa. His Dark Materials não possui ritmo tão apressado justamente por isso. Por mais que teria sido muito legal ver mais do Jordan College, quando Lin-Manuel Miranda aparece como Lee Scoresby no episódio 4, o enredo da temporada inicia um novo momento, que é o da jornada até o norte e todos os mistérios que vimos ser construídos até então. A partir daí, restam apenas outros dois terços da temporada e do primeiro livro, portanto, as coisas precisar continuar a andar.

O próximo parágrafo contém spoilers da série, pode pular se quiser!

Voltando à participação de Andrew Scott, se você não conhece os livros, nos deixe explicar. Seu personagem é pai de Will Parry, – sim, ele está vivo! – o co-protagonista de A Faca Sutil e, na série, foi introduzido a partir do episódio 4. Mais adiante ele irá se juntar a Lyra em sua jornada. Ela ainda é a heroína e a escolhida pela profecia, não se preocupe. Will tem um pepel crucial na história, principalmente no livro final, e é realmente inteligente ouvir sobre ele e o pai agora. O livro meio que abandona Lyra para apresentar Will, o que é bom quando você está lendo, mas pode ser desorientador na tela. Ele também tem um gato.


É o planejamento que realmente emociona os leitores e fãs da saga enquanto acompanham a série. O fato de Lyra ser uma das minhas protagonistas favoritas de todos os tempos – a construção desta personagem consegue fugir de todos os esteriótipos de protagonistas femininas e ela atinge a maioridade sem pender para uma hiper-feminização ou para o extremo oposto de alguém que nega tudo o que há de feminino, por isso ela é como qualquer garoto, ela é genuína – é apenas um bônus. Esse programa está fazendo algumas escolhas estranhas, mas elas são fortes e confiantes, e eu respeito isso. Não preciso me preocupar que talvez o final não faça sentido se eu puder ver que eles estão preparando um terreno sólido agora. É também uma maneira divertida de surpreender os fãs dos livros, sabe? Talvez eu saiba para onde tudo isso está indo, mas se algo de A Faca Sutil aparecer daqui a pouco, eu gritaria de entusiasmo!

Outra adaptação de um livro não tão popular (mas deveria!) e que já foi adaptado e reinterpretado milhares de vezes para o cinema, é Troia: A Queda de uma Cidade. A série é uma adaptação destemida da Ilíada de Homero. A produção não teve medo algum em tomar algumas decisões ousadas e elas foram cruciais para dar a configuração e a atualização necessárias para que a história funcionasse no formato proposto. O que encanta são os cuidados com cada detalhes. Na literatura grega antiga, era comum os grandes acontecimentos serem apresentados através de presságios, sejam eles anúncios de morte ou decisões difíceis representados por pássaros que voam ao céu em uma cena aparentemente sem nenhum propósito ou visões das escadarias da cidade cobertas por um líquido escuro. Enfim, essa série foi genial!

Essas adaptações são boas, e não apenas porque os cineastas estão capturando o “espírito” do material de origem. Eles estão realmente contando uma história que é autônoma. Ninguém nunca disse que cinema e televisão são definitivos e que a adaptação deve ser o “objetivo” de qualquer livro… a imaginação e experiência de leitura não vão a lugar nenhum! Com mais adaptações como His Dark Materials, no entanto, talvez possamos concluir apenas que “o livro era diferente”.

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