J.K. Rowling e sua retórica transfóbica

J.K. Rowling e sua retórica transfóbica
Christophe Ena / Shutterstock

Vamos entender o que acontece…

Vocês acham que J.K. Rowling já ouviu a frase “você morre como herói ou vive o suficiente para se tornar um vilão”? Porque, sinceramente, a presença dela no Twitter nos últimos anos – que só trouxe mais atenção às questões mais problemáticas existentes na série Harry Potter – trás a tona essa ideia, especialmente com seus últimos comentários sobre pessoas trans.

Recentemente, na última quinta-feira (19), a autora manifestou apoio a uma mulher britânica que não teve seu contato renovado em uma organização sem fins lucrativos, que advoga contra desigualdade, por conta de diversos tweets declarando as opiniões dela sobre questões de gênero e pessoas trans.

Segue o tweet de Rowling:

“Vista-se como quiser. Chame a si mesmo do que quiser. Durma com qualquer adulto que consinta você. Viva sua melhor vida em paz e segurança. Mas forçar as mulheres a deixarem seus empregos por afirmarem que sexo é real? #IStandWithMaya (eu apoio Maya).”

Amada?

Para entender o que estava acontecendo: a pessoa que J.K. está invocando em seu tweet é Maya Forstater. De acordo com o LGBTQ nation, Forstater não teve seu contrato renovado quando encontraram tweets seus utilizando linguagem ofensiva e excludente sobre pessoas trans. Ela dizia coisas como “homens não podem se transformar em mulheres” e enquadrou a discriminação contra mulheres trans como algo que “prejudica os sentimentos dos homens”. Em resposta à sua não contratação, ela abriu um processo judicial alegando que suas opiniões estão protegidas pela Lei de Igualdade do Reino Unido.

No entanto, o juiz responsável pelo caso decretou que “sua transfobia não é algo protegido por lei, pois ‘cria um ambiente intimidador, hostil, degradante, humilhante ou ofensivo’ que não cabe em uma sociedade democrática”. Então, seu empregador tinha todo o direito de não contratá-la.

A situação é ainda mais bizarra porque Forstater era funcionária no Centro de Desenvolvimento Global (CGD), uma organização internacional que trabalha diretamente com os setores mais frágeis da sociedade, lutando contra a pobreza e as desigualdades.

Então, enquanto a roteirista de Os Crimes de Grindelwald escolheu fazer toda a situação parecer um ataque do governo a uma mulher, trata-se, na verdade, de uma mulher que enfrenta as consequências por suas atitudes opressoras e sua linguagem ofensiva. E essas declarações de Rowling ferem pessoas trans porque (1) defendem abertamente uma pessoa que trabalhava em uma organização que lida diretamente com setores frágeis da sociedade e que estava disposta a desrespeitar essas pessoas por conta de seus preconceitos de sexo e gênero; (2) porque fere a existência social dessas pessoas; e (3) porque a reprodução desse preconceito fere a dignidade de pessoas trans e contribui para uma cultura que impede ativamente esses setores de viverem as suas “melhores vidas com paz e segurança”.

É por causa de tudo isso que J.K está sendo criticada e ela devia estar envergonhada. Gostaria de dizer que estou surpresa, mas esta é a pessoa que defendeu Johnny Depp, que foi acusado de agressão pela ex-mulher, Amber Heard, em 2016. Esta é a pessoa que constantemente apoia discursos de ódio em suas redes sociais. É triste ver seus heróis se tornando vilões, mas nenhuma dessas coisas invalida o amor dos fãs por Harry Potter e sua relevância na cultura pop. Por vezes, é preciso separar autor e obra, entendendo que ela vive para além de seu criador e com a relevância que seu público dá a ela. No entanto, isso não significa que as devidas críticas não devam ser colocadas sempre.


Tantas pessoas se manifestaram criticando as posições contra a comunidade trans que até dá um quentinho no coração.

Emma Watson fortalece <3
https://twitter.com/_apus05/status/1207791777446535170?s=19

Se você quiser ler uma série infantil incrível de alguém que é aliado, recomendo os livros de Percy Jackson de Rick Riordan. As histórias incluem vários personagens LGBT e um autor que tenta corrigir ativamente seus erros quando os comete. Em comparação, Rowling apenas dobrou seus erros e usou suas aventuras em roteiros para ilustrar ainda mais que ela não é especialista em criar personagens fora de seu ambiente conservador de conforto.


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