Romances e histórias sobre pandemias que assustaram a humanidade ao longo da história

Romances e histórias sobre pandemias
Divulgação

Listamos alguns romances e histórias sobre pandemias que podem ser estranhamente reconfortante de ler enquanto ficamos em casa durante essa crise do Corona Vírus

Sim. Estamos em um momento delicado no mundo e, agora, no Brasil. Pedimos que respeitem as recomendações da OMS e saiam de casa o menos possível.

De acordo com o Ministério da Saúde, o COVID-19 (Corona Vírus) já atingiu 291 casos confirmados, e há outros 2.064 casos suspeitos aguardando resultado de exames. O El País listou algumas ações que todos podemos realizar para ajudar a combater a crise do vírus, confira aqui!


Recado dado, vamos partir para os nossos romances e histórias sobre pandemias que podem ser estranhamente reconfortantes de ler no momento em que estamos.

Talvez seja o vínculo que criamos ao ler histórias de pessoas que já passaram (hipoteticamente ou não) por situações parecidas com a nossa que traga um certo conforto e alívio por não estarmos sozinhos no tempo e no espaço.

Talvez ler essas histórias nos desperte para o fato de que o espírito humano, mesmo em seus piores momentos de crise, é resiliente e criativo para ultrapassar obstáculos e seguir avançando como sociedade.

Ao ler histórias parecidas com a nossa podemos ter uma perspectiva mais nítida do mundo. E, caso você esteja pensando em todas essas coisas e até um pouco preocupado, aqui estão alguns livros sobre pandemias que assolaram a humanidade ao longa da história para aproveitarmos enquanto ficamos em casa.


Já faz algum tempo que cultivo um fascínio por histórias de guerra e momentos de crise, principalmente, por conta das mudanças sociopolíticas, religiosas e artísticas que resultam destes períodos. Um momento histórico pode ser sempre melhor analisado depois um certo intervalo de tempo, então, vamos começar com algumas histórias antigas.

Tucídides

Em sua História da Guerra do Peloponeso, Tucídides, “o pai da história científica”, escreve sobre a praga ateniense (ou “Grande Praga de Atenas”) do século 430 a.C., que matou mais de um terço da população da Grécia.

“… Uma grande praga e mortalidade de homens nunca foram lembradas por terem acontecido em nenhum lugar antes. Pois, a princípio, nem os médicos conseguiram a cura, por conta do desconhecimento do que era, mas morreram mais rapidamente, por serem os homens que mais se aproximavam dos doentes mais do que qualquer outra arte do homem. Todas as súplicas aos deuses e indagações dos oráculos e qualquer outro meio que eles usassem desse tipo se mostraram inúteis; tão subjugados com a grandeza do mal, eles se entregaram por todo o lado. ”

É possível ter acesso a essa história através do portal da USP e-Disciplinas, veja aqui.


Lucrécio

O poeta e filósofo romano Lucrécio também abordou a praga em Atenas em sua obra épica de seis livros de poesia do século I a.C., Da Natureza das Coisas.

Por enquanto não há mais homens
Poderosamente estimava o velho Divino,
A adoração dos deuses: a angústia à mão
Dominou tudo.

Há uma edição deste poema épico disponibilizado pelo Letras Clássicas da UFPB que você pode conferir aqui.


Édipo Rei

Ainda sobre pestes que assolaram o mundo antigo, experimente conhecer a peça de Sófocles, Édipo Rei, na qual a cidade de Tebas está passando por uma terrível pestilência.

Uma praga está na nossa colheita no ouvido,
Uma praga nos rebanhos e manadas de pastagem,
Uma praga nas esposas em trabalho de parto; e também
Armado com sua tocha ardente, o Deus da Praga
Abateu nossa cidade esvaziando
A casa de Cadmus e o reino obscuro
De Plutão está cheio de gemidos e lágrimas.

Esta peça teatral faz parte do conjunto de obras que compõem as tragédias gregas. Vale dizer também que ela é a primeira parte de uma trilogia conhecida como Trilogia Tebana. Aqui você pode conferir as três peças Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona.


Decameron

A obra-prima de Giovanni Boccaccio, Decameron, é talvez a obra mais famosa da literatura a abordar uma praga – A Peste Negra. Nesta história, sete garotas e três garotos fugiram para uma vila nos arredores de Florença para escapar da doença que devastou a cidade em 1348. Eles passam o tempo contando histórias. Boccacio estava escrevendo quase em tempo real, ele terminou o Decameron em 1353. Além da narrativa, há também observações fascinantes sobre as ramificações de uma grande doença na sociedade e os padrões de comportamento.

Desse abandono dos doentes por vizinhos, parentes e amigos e da escassez de criados surgiu um costume quase inédito, ou seja, de que nenhuma mulher, por mais justa, amável ou bem nascida que fosse, depois de ficar doente, pensasse em ter um homem para cuidar dela, seja ele qual for, jovem ou velho, e sem que nenhuma vergonha lhe descobrisse as partes de seu corpo, da mesma forma ela não faria com uma mulher, mas a necessidade dela a doença exigia; o que assim como para aqueles que se recuperaram, foi ocasião de menor modéstia no futuro.

Confira a obra aqui!


Um Diário do Ano da Peste

Um Diário do Ano da Peste é um romance de Daniel Defoe publicado em 1722. A narrativa segue as experiências de um homem durante a Grande Praga de Londres em 1665. O surto bubônico de 1665 matou cerca de 100.000 pessoas, mais de um quarto da população da cidade, em apenas um ano e meio. Defoe se esforçou ao máximo para retratar os eventos com precisão, argumentando com frequência se o livro deveria ser considerado ficção ou não-ficção.

“Como um todo, a aparência das coisas estava muito diferente: dor e tristeza em todas as faces. Mesmo algumas zonas ainda não estando tomadas, todos pareciam muito preocupados. Como víamos a peste, aparentemente, se aproximando, cada um cuidava de si e de sua família como se corressem o maior perigo. Se fosse possível representar exatamente aqueles tempos para aqueles que não os viram, dando ao leitor a devida ideia do horror que se apresentava em toda parte, seria preciso criar imagens em suas mentes e enchê-las de pavor. Bem pode-se dizer que Londres estava toda em lágrimas.

As carpideiras, na verdade, não saíam pelas ruas e ninguém se vestia de preto ou mandava fazer um traje formal de luto nem pelos amigos mais íntimos, mas as vozes das carpideiras eram claramente escutadas nas ruas. A choradeira das mulheres e crianças nas janelas e portas das casas onde seus parentes mais queridos talvez estivessem morrendo, ou recém-mortos, era tão freqüente quando se passava pelas ruas que bastava para cortar o mais insensível coração do mundo que a escutasse. Viam-se lágrimas e lamúrias em praticamente todas as casas, principalmente no início da epidemia, pois, quando se aproximou do fim, os corações dos homens estavam tão endurecidos e a morte era tão constante diante de seus olhos que já não se preocupavam tanto com a perda de seus amigos, esperando que também eles fossem chamados na hora seguinte.”

O livro completo está disponível aqui.


Diário de Samuel Pepys

Enquanto Defoe não escrevia sobre suas experiências próprias, Samuel Pepys sim, no Diário de Samuel Pepys. Pepys, administrador da Marinha e membro do Parlamento, manteve um diário detalhado e meticuloso de suas atividades diárias de 1660 a 1669. Muitas vezes mundano e banal, observamos Pepys flertar com mulheres e se preocupar com a burocracia, mas também é possível ter uma ideia de como era a vida britânica do século XVII e, com a abordagem da Praga, as experiências e observações de Pepys se tornam extraordinárias. Enquanto a Grande Peste engole Londres, Pepys está lá para registrar seus efeitos devastadores.

Então caminhei até Redriffe, onde ouço a doença e, de fato, está espalhada por quase todos os lugares, assombrando 1089 pessoas nesta semana. Minha senhora Carteret me deu hoje uma garrafa de água de peste. Então, escrevo cartas à tarde e, em seguida, em casa, onde eu não dormi essas 3 ou 4 noites. […] Hoje à tarde, esperei no duque de Albemarle, e então na casa da sra. Croft, onde encontrei e saudei a sra. Burrows, que é uma mulher muito bonita para uma mãe de tantas crianças. Mas senhor! para ver como a praga se espalha. Agora está em todo o King’s Streete, no Axe, e ao lado dele, e em outros lugares.

“Hoje, um pobre marinheiro, quase morrendo de fome, jazia no quintal morrendo. Enviei meia coroa a ele e pedimos o pagamento da passagem.”

O diário completo de Samuel Pepys está disponível online aqui. Infelizmente, não há uma tradução integral para o português disponível no momento.


O Último Homem

A deusa da ficção científica, Mary Wollstonecraft Shelley, escreveu um romance pós-apocalíptico, O Último Homem, sobre uma praga que destruiu a civilização e deixou para trás um último homem. O livro não teve força quando foi publicado em 1826, mas viu um renascimento acadêmico na década de 1960. Para os aficionados da literatura, há muitos personagens inspirados na vida da própria Shelley, seu marido Percy Bysshe Shelley e seu amigo Lord Byron. Os críticos da época odiaram o livro, chamando a mente de Shelley de “doente”, mas a autora apostou em seu trabalho e nos legou uma história envolvendo e emocionante.

Me disseram que a praga está em Constantinopla, talvez eu tenha absorvido seus eflúvios – talvez a doença seja a causa real de meus prognósticos. Pouco importa por que ou como sou afetado, nenhum poder pode evitar o golpe, e a sombra da mão erguida do Destino já me escurece.

O livro está disponível aqui.


A Máscara da Morte Rubra

A Máscara da Morte Rubra é um conto de Edgar Allan Poe e foi publicado em 1842. A história sinistra de Poe pode ser lida como um aviso para quem se deleita com extravagância enquanto exclui os menos afortunados, além de trazer a temática da inevitabilidade da morte, não importa quem você seja. A história acompanha um príncipe e sua multidão mimada de amigos e nobres que se isolam em uma abadia ricamente designada para evitar uma praga que varre a terra. Eles estão se divertindo muito até que um hóspede inesperado aparece.

Era uma construção imensa e magnífica, criação do gosto excêntrico, mas grandioso do próprio príncipe. Circundava-a a muralha forte e muito alta, com portas de ferro. Depois de entrarem, os cortesãos trouxeram fornalhas e grandes martelos para soldar os ferrolhos. Resolveram não permitir qualquer meio de entrada ou saída aos súbitos impulsos de desespero dos que estavam fora ou aos furores do que estavam dentro. O mosteiro dispunha de amplas provisões. Com essas precauções, os cortesãos podiam desafiar o contágio. O mundo externo que cuidasse de si mesmo. Nesse meio-tempo era tolice atormentar-se ou pensar nisso. O príncipe havia providenciado toda a espécie de divertimentos. Havia bufões, improvisadores, dançarinos, músicos, beleza, vinho. Lá dentro, tudo isso mais segurança. Lá fora, a “Morte Rubra”.

O conto é bem curtinho e muito divertido (risos nervosos), encontrei ele disponível aqui.


Eu procurei textos com acesso livre para colocar nesta lista, especialmente neste momento de ansiedade econômica generalizada, mas caso você queira aprofundar suas leituras, posso recomendar ainda A Grande Mortandade, de John Kelly, e, Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher, de Nicole Loraux. Na ficção existem inúmeros livros a serem descobertos e caso você tenha alguma sugestão para incluir aqui não deixe de nos contar através nossas redes sociais!


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