Você Nem Imagina | Alice Wu revela história que inspirou o filme

Alice Wu revela história que inspirou Você Nem Imagina
Netflix/Divulgação

Cineasta conta que adaptou um momento difícil de sua vida para o filme da Netflix e aprendeu muito com ele

A diretora e roteirista de Você Nem Imagina, novo filme original da Netflix, Alice Wu, contou, em um texto divulgado nas redes sociais da plataforma de streaming, um pouco mais sobre o episódio de sua vida que inspirou a trama do longa.

Em seu depoimento, a cineasta revela que, pouco depois de assumir sua sexualidade para a sociedade, começou uma amizade inesperada com um homem heterossexual, mas que a relação ficou abalada quando a namorada do rapaz viu em Wu uma ameaça em potencial.

Alice contou também que modificou o cenário da história, que originalmente aconteceria com personagens de vinte e poucos anos, para o período do colegial porque é a única época da vida em que “tudo é elevado, todo sentimento é o primeiro”. Ela ainda disse que o tempo que passou lidando com a história a ajudou a repensar sobre o que de fato é o amor.

Confira o texto na íntegra:

A primeira vez que eu tive meu coração partido não foi por uma garota, mas por um cara. Um cara hétero branco do centro dos Estados Unidos, na verdade. Se você selecionasse esse cara da multidão e dissesse ‘esse garoto será seu melhor amigo’, eu não acreditaria. Mas, às vezes você conhece uma pessoa e, por algum motivo, a ‘estranheza’ de vocês funciona junto. Ele me ajudou a me aceitar como gay em um momento da vida em que nós não conhecíamos nenhum gay – e nós dois cambaleamos no estranho campo de ‘tentar arranjar uma garota’. E ele conseguiu, para nossa alegria (pelo menos um de nós não vai morrer sozinho)… E então, desastre. A nova namorada dele estava preocupada com nossa amizade, apesar de saber que eu era gay. Então, devagar e inevitavelmente, o cálculo delicado da nossa amizade foi corroído. Eu me lembro de uma noite chuvosa, nós dois chorando no carro, eu dizendo ‘eu não entendo. Se algo fosse acontecer entre a gente, já não teria acontecido?’. E ele respondeu ‘ela não acha que a gente vá transar. Ela se sente ameaçada pela nossa amizade’. Eu sempre vou me lembrar disso.

Você Nem Imagina não começou como um filme adolescente. Eu queria escrever dois melhores amigos de vinte e poucos anos, uma lésbica e um hétero, tentando entender o amor, sem nem mesmo entender a conexão entre eles. E me deparei com uma barreira: não conseguia encontrar um final (nem em 100 páginas) que parecesse satisfatório e merecido. Esse é o obstáculo de tentar escrever sobre sua vida – e você não tem a menor ideia de como fazer a vida funcionar como queria. Eu certamente não sabia como amar naquela época e eu com certeza não sei hoje em dia. Então. Joguei tudo pra cima e pensei ‘eu deveria levar a história para o colegial’. Porque apenas no colegial tudo é elevado, todo sentimento é o primeiro e, por isso, a primeira vez que você vai senti-lo, e, francamente, quando o assunto é amor, não regredimos todos para o colegial? Como normalmente acontece no meu trabalho; todo um componente Cyrano [de Bergerac, escritor francês do séc. XVII] se infiltrou e o filme se tornou outra coisa.

Então, aqui estou, batendo nas portas da meia-idade, acabando de fazer um filme sobre adolescentes. Agora que está pronto, consigo ver algumas coisas mais claramente. Primeiramente: eu pensava que existia apenas uma maneira de amar. Que A + B – C = Amor. Agora que estou mais velha, vejo que existem mais. Tantas maneiras de amar que jamais imaginei.”

E mais: finais são difíceis porque queremos respostas. Quinze anos atrás, com meu primeiro filme Livrando a Cara, eu tinha a mesma pergunta constantemente: ‘esse final é feliz demais?’. Na época, por mais que eu visse a realidade ali nos meus personagens, eu confessei não saber se aquele final feliz poderia ser esperado na vida real; mas como uma mulher queer, eu queria – precisava – ver para crer que isso poderia acontecer comigo. Agora, com Você Nem Acredita, eu me pego fazendo perguntas sobre se os personagens ficam juntos em um crescendo íngreme rumo a ‘mas o final é feliz?’ (Ha!) Minha resposta honesta é que o filme não é sobre duas pessoas que acabam juntas. É sobre três pessoas que colidem em um determinado momento antes de seguirem seus próprios caminhos, cada um segurando os pedaços de si que os ajudarão a se tornar quem eles deveriam ser. O fim do filme é o começo deles. E, para os meus personagens, eu não consigo pensar em um final mais feliz.

“O que me traz de volta ao meu amigo que me botou neste caminho. Escrevi Você Nem Imagina como uma maneira de superar o coração partido por perder uma amizade. Em retrospecto, eu devia estar resolvendo a equação errada. Sempre pensei no que eu poderia ter feito diferente para desligar o coração partido. Com ou sem a dor, essa amizade me ajudou a me tornar quem eu sou. Aquelas noites acordados pensando em como vencer no amor nunca foram sobre ‘vencer’ ou ‘amor’. Eram sobre dois panacas que se importavam o bastante para enxergar e aceitar o outro. É o que mais amo sobre Ellie e Paul, sobre Ellie e Aster. E em retrospecto, sobre meu amigo e eu.

E assim: Você Nem Imagina. E a esperança que alguns de seus finais se tornem começos”.


Nem sei o que dizer depois dessa carta…


O longa, que conta com Leah Lewis e Daniel Diemer no elenco, chegou em 1º de maio à Netflix.


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