Sobre essa história de Manic Pixie Dream Girl

Sobre essa história de Manic Pixie Dream Girl
Toner Magazine/Reprodução

Se você é fã de cinema, provavelmente já se deparou com o termo “Manic Pixie Dream Girl”. Mais um chute ainda: você já está cansado de saber que a Summer de 500 Dias Com Ela não era uma vaca, mas na verdade o exemplo perfeito de como essa figura é puro fruto das expectativas masculinas do roteirista. Mas não é disso que vamos falar hoje.

Para vocês que acabaram de cair de para-quedas nesse termo, Manic Pixie Dream Girl é um tipo de personagem feminina muito comum no cinema e na literatura. O termo foi criado por Nathan Rabin nessa análise de Elizabethtown. Em poucas palavras, a MPDG existe “unicamente na imaginação febril de roteiristas-diretores sensíveis para ensinar homens jovens emotivos e taciturnos a abraçarem a vida e seus infinitos mistérios e aventuras”, segundo o próprio autor.

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Como define Anita Sarkeesian, do Feminist Frequency:

Manic Pixie Dream Girl: o raio brilhante de alegria quase infantil que irá rejuvenescer nosso herói caído; (…) uma personagem feminina escrita para ajudar o geralmente branco e definitivamente hétero protagonista a relaxar e aproveitar a vida. (…) A MPDG é uma personagem coadjuvante usada para desenvolver a narrativa do protagonista masculino. Ela, na verdade, não tem vida própria, não tem família, ou interesses, ou qualquer emprego que possamos ver.

A MPDG é, primeiramente, um artifício de roteiro extremamente preguiçoso. Mas, além disso, um estereótipo muito comum e nocivo para nós enquanto mulheres. E é sobre isso que precisamos conversar.

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Se esse tipo de personagem, trope, ou estereótipo, está solto por aí, você pode ter certeza de que as pessoas vão absorvê-lo. E jovens meninos sensíveis e atormentados, que se identifiquem com o personagem masculino como os desses filmes e livros, serão os primeiros nesse caso.

Eles também sairão à procura de suas Manic Pixie Dream Girls, depositando todas as suas esperanças e sonhos em uma menina idealizada por eles. Garotas que tenham os mesmos gostos que eles, mas mais coragem do que eles jamais terão. Minas (literalmente) secretas que só eles descobriram até então.

Mal sabem eles que essas mulheres foram escritas por homens como eles, e não por mulheres reais. Essas mulheres existem apenas na sua imaginação. Elas são apenas uma projeção de tudo que o roteirista, o protagonista e você, jovem sensível, desejam. Mal sabem eles que a garota que está na frente deles não é a garota dos seus sonhos, porque essa que só habita na sua imaginação. Mal sabem eles que mulheres não estão lá para serem suas salvadoras, suas musas ou suas mães. Mulheres estão lá para ser. E, o mais importante: mal sabem eles que meninas da sua idade estão tão despreparadas para os baques da vida quanto eles.

E, ao mesmo tempo, nós mulheres consentimos. Especialmente quando somos jovens, buscamos a aprovação dos nossos colegas, principalmente dos meninos. Somado aos problemas de autoestima (se você, como eu, não se encaixava nos padrões de beleza durante a adolescência), acreditamos que realmente só teremos qualquer valor quando um homem nos notar enquanto musa inspiradora. Quando conquistarmos um garoto, não importa de que forma. Entre as possíveis maneiras conformadas pela sociedade, a Manic Pixie Dream Girl parece uma saída não atrelada aos padrões de beleza, porque nós “não somos como as outras garotas”.

Nós também nos enxergamos através do olhar masculino e nos colocamos à disposição de caras como esses para nos idealizar, nos moldar, nos darem papéis. Nos propomos a ser salvadoras, musas e mães deles, quando deveríamos ser mulheres por completo. Com nossos próprios sonhos, nossas próprias aspirações na vida, nossas próprias características, qualidades e defeitos que não cabem em uma definição de três linhas.

Deixamos nossos sonhos de lado por acreditarmos nessa trope. Nos vemos através desse olhar masculino, em que servimos apenas para ajudarmos nosso companheiro a atingirem suas metas. A viverem vidas mais completas, que, honestamente, nós já vivíamos antes deles.

Mas, breaking news: isso não é um filme escrito por um roteirista homem “sensível”. Isso é a sua vida, você é a protagonista, E roteirista, E diretora, e a p*rra da equipe inteira.

Vivemos em uma sociedade que nos coloca diante de um prisma do olhar masculino a todos os momentos, seja esteticamente com todos os padrões de beleza irreais ou emocionalmente em estereótipos como esses. E essa sociedade não nos deixa virar o rosto e nos obriga a enxergarmos a nós mesmas através desse prisma também.

Temos de nos desvencilhar desse olhar e nos propor a sermos mulheres tridimensionais. Na verdade, isso já somos, mas temos que nos projetar perante a sociedade como tal. Como define Sarkeesian:

A MPDG perpetua o mito de que mulheres são cuidadoras natas, que vamos consertar esses homens tristes e solitários para que eles possam consertar o mundo; Mulheres não estão aqui para a inspiração ou celebração ou qualquer outra coisa dos homens, nós somos músicas e artistas e escritoras com nossas próprias brilhantes e criativas ambições.

Voltando à Summer de ‘500 Dias com Ela’…

A história de 500 Dias com Ela é a história de Tom, não de Summer. Summer está no filme não como alguém, mas como quase um cenário para a narrativa de Tom. Ela não tem história própria – nós até sabemos da separação de seus pais, de seus ex-namorados e de alguma coisinha aqui e a ali sobre como ela apareceu na vida de Tom, mas não o que ela sente, quem são seus amigos e quais são suas expectativas e planos – e tudo o que vemos sobre ela é colocado para, de alguma forma, contar a história de Tom. Basicamente, Summer poderia ser até coisa da cabeça de Tom, já que só a vemos pelo olhar dele.

Assim, a MPDG pode até parecer um grande avanço em relação à femme fatale, afinal, ela é interessante por seu conjunto, e não só por sua beleza. O problema está no fato de que esse tal conjunto continua sendo uma série de idealizações masculinas. É a mulher ainda no papel de musa, existindo com a única função de inspirar um cara a mudar sua própria visão sobre a vida blá blá blá.


Por fim, deixo como recomendação este poema:

“E por um momento, pareci tão humana que o público perdeu o interesse”

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