Testes de Representatividade na Ficção

Testes de Representatividade na Ficção
The Get Down/Netflix/Divulgação

Separamos 4 testes úteis para avaliar a representação de mulheres e “minorias” na ficção

Uma realidade: o cinema (e a cultura pop e grande mídia, em geral) é péssimo em retratar qualquer coisa que não seja um homem branco cis hétero. Mulheres são sub-representadas, pessoas negras são sub-representadas (com mulheres negras em situação especialmente deplorável); LGBTs são sub-representados (sendo que lésbicas, bissexuais e pessoas trans são quase inexistentes na telona); indígenas e asiáticos são sub-representados. E mesmo quando essas “minorias” aparecem e têm algum destaque, normalmente é para preencher algum estereótipo tosco e desumanizante que reforça o ciclo de opressão.

Os papéis que Hollywood costuma reservar a atrizes negras, por exemplo.

Nunca reparou nisso? Pois não se desespere. Felizmente existem três testes simples (e um bônus) que você pode fazer com um filme (ou livro, série, etc) para começar a avaliar como ele se sai em relação a representação de “minorias”. Esses testes têm várias falhas, claro, mas são um bom ponto de partida para começar a entender como a mídia reforça essa cultura que valoriza o homem branco cis hétero como padrão. Vamos a eles.

Teste Bechdel

O teste Bechdel surgiu em 1985 em uma história do quadrinho Dykes to Watch Out For, da cartunista Alison Bechdel.

Bechdel explica que o teste foi, na verdade, criação de sua amiga Liz Wallace, que por sua vez foi inspirada pelo ensaio “Um Teto Todo Seu”, de Virginia Woolf. Nele, Woolf reflete já em 1929 sobre a maneira como as mulheres eram retratadas na literatura da época e como elas careciam de representações nas artes e na literatura para ter uma tradição na qual se situar:

“Todas essas relações entre mulheres, pensei, recordando rapidamente a esplêndida galeria de personagens femininas, são simples demais. Muita coisa foi deixada de fora, sem ser experimentada. E tentei recordar-me de algum caso, no curso de minha leitura, em que duas mulheres fossem representadas como amigas. […] Vez por outra, são mães e filhas. Mas, quase sem exceção, elas são mostradas em suas relações com os homens. Era estranho pensar que todas as grandes mulheres da ficção, até a época de Jane Austen, eram não apenas vistas pelo outro sexo, como também vistas somente em relação ao outro sexo. E que parcela mínima da vida de uma mulher é isso!”

Bem, cinquenta e seis anos depois, Bechdel escreveria em seus quadrinhos uma personagem que explica que só assiste a um filme se ele tiver pelo menos uma cena em que:

  1. Pelo menos duas personagens femininas aparecem e…
  2. …conversam uma com a outra sobre…
  3. …qualquer coisa que não seja sobre homens.

OBS: Dependendo de quão rigoroso você quiser ser, pode exigir também que as duas personagens tenham nome. ?‍♀️

Parece bem simples, mas são poucos os filmes que satisfazem esses critérios. Mesmo filmes com mulheres protagonistas ou em papéis de destaque raramente passam no teste. E embora seja bastante discutido há vários anos, esse é um problema que não está dando sinais de ir embora. Aliás, se passar no Bechdel fosse obrigatório, metade dos filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme estariam fora.

Agora, existem vários problemas com o teste Bechdel. Muitas vezes um filme passa no teste simplesmente porque uma personagem ofereceu um cafezinho para a outra. Ou então, muitos filmes que passam no teste conseguem o feito simplesmente porque as personagens femininas falam sobre bebês ou casamento, ao invés de falar sobre homens. Por outro lado, alguns filmes incrivelmente feministas não passam no Bechdel. Mesmo assim, o teste oferece um bom panorama de como as mulheres são retratadas no cinema, e não deixa de ser um bom ponto de partida para começar a avaliar como um filme se sai em relação a representatividade feminina.

Teste Russo

Inspirados no Bechdel, outros testes surgiram recentemente para auxiliar na análise da representatividade de outras minorias na mídia. Em 2013, a organização GLAAD criou o Teste Russo para avaliar a forma como pessoas LGBTs são retratadas no cinema. Batizado em homenagem ao historiador de cinema e ativista LGBT Vito Russo, o teste possui três critérios:

  1. O filme precisa possuir um personagem reconhecidamente gay, lésbico, bissexual e/ou transgênero.
  2. Esse personagem não pode ser somente ou predominantemente definido pela sua orientação sexual ou identidade de gênero. Isto é, ele deve ser criado com o mesmo tipo de traços de personalidade comumente usados para diferenciar personagens cis hetero uns dos outros.
  3. O personagem LGBT precisa estar envolvido na trama de tal forma que a sua remoção traria impactos significativos. Ou seja, ele não pode estar lá apenas como alívio cômico, ou para criar um cenário urbano autêntico. O personagem precisa ter um papel significativo na trama.

Tais critérios foram definidos depois que a GLAAD fez uma avaliação de personagens LGBT em 101 dos filmes mais lucrativos de 2012. O que a organização descobriu foi desanimador. Apenas 14 filmes entre os 101 avaliados possuem personagens gays, lésbicas ou bissexuais, e nenhum possui personagens transgênero. Outro problema é o fato de que mesmo quando um filme possui personagens LGBT, eles são, na sua maioria, homens brancos cis, e aparecem quase sempre em filmes de comédias.

Claro que, assim como o teste Bechdel, o teste Russo também apresenta suas limitações. Mas ainda assim, é uma boa ferramenta para começarmos a pensar sobre a maneira que o cinema retrata personagens LGBT em suas produções.

Teste DuVernay / Shukla / Latif

O teste DuVernay, ou Shukla, ainda está em fase de criação. Tudo começou em 2013, quando o escritor Nikesh Shukla cansou de não encontrar personagens negros ou de outras “minorias” étnicas nas grandes produções (ou de vê-los representados apenas com estereótipos racistas) e propôs um teste para avaliar a representação de raça no cinema. A ideia era tentar encontrar casos em que o fato de um personagem ser negro não fosse uma característica central ou definidora da personalidade desse personagem. Curiosamente, ele próprio já havia tido de enfrentar a expectativa branca de que se um personagem é “étnico”, então ele tem que agir “de acordo com a sua etnia” (traduzindo: de acordo com estereótipos da sua etnia). Shukla conta:

“Uma pessoa uma vez escreveu que um dos meus contos era ‘uma confusão amorfa de nomes indianos’. A implicação era que, se eu tivesse usado nomes mais tradicionalmente britânicos como Steve, Bob, Andy, Joe e Paul, ele teria gostado mais do conto. O mesmo crítico então terminou seu texto comentando que apesar de os personagens serem indianos, havia ali uma experiência universal – de novo, a implicação sendo que, normalmente, indianos não têm experiências universais, só têm experiências indianas”.

Assim como Bechdel, o teste que Shukla propôs é bem simples. Para passar, o filme teria simplesmente que:

  1. Incluir pelo menos dois personagens de minorias étnicas que…
  2. …conversem um com o outro por mais de cinco minutos sobre…
  3. …qualquer coisa que não seja sobre raça.

Agregando a essa primeira ideia de Shukla, a crítica Manohla Dargis sugeriu em um artigo para o The New York Times um ‘Teste DuVernay’ (em homenagem à cineasta negra Ava DuVernay, responsável pelo aclamado Selma). Para Dargis, um filme não poderia passar no teste a menos que apresentasse personagens negros ou de outras minorias étnicas com vidas e histórias completas, ao invés de servirem apenas como cenário para protagonistas brancos.

Da mesma forma, as blogueiras Nadia e Leila Latif propuseram um teste um pouco mais completo em um artigo no The Guardian. Para elas, para um filme passar ele precisaria ter:

  1. Pelo menos dois personagens negros ou de outras etnias que…
  2. …não estão romanticamente envolvidos e…
  3. …têm algum diálogo, mas…
  4. …esse diálogo não tem nada a ver com consolar, aconselhar ou apoiar um personagem branco.

Assim como no caso dos testes Bechdel e Russo, o teste DuVernay / Shukla / Latif também é falho. Um filme pode cumprir todos esses requisitos e ainda assim ser racista. Mas assim como no caso dos outros testes, ele serve como uma boa forma de começar a discussão sobre a representação nos filmes.

A famigerada lista de indicados ao Oscar em 2016.

Bônus – Teste Jada

O teste Jada não tem exatamente a representatividade como foco, mas sim a forma como a violência sexual é retratada na ficção. De alguns anos para cá, os roteiristas de Hollywood tem usado o estupro de personagens femininas exaustivamente apenas como recurso narrativo, ou como uma forma preguiçosa de dar profundidade às personagens (e pior: muitas vezes, erotizando a violência). Ao optar por não abordar o tema com sensibilidade e com foco tanto em suas causas sistêmicas, como em soluções, a cultura pop joga fora todo o seu potencial de produzir mudanças positivas na sociedade e acaba retratando uma versão muito simplificada do problema, fortalecendo mitos que dificultam o combate à violência na vida real.

Pensando nisso, a autora Jada Yuan elaborou um teste para avaliar cenas de estupro em narrativas. Ele consiste em três perguntas:

  1. O estupro ocorre pelo ponto de vista da vítima?
  2. A cena de estupro possui o propósito de desenvolvimento da personagem da vítima em vez da trama da narrativa?
  3. O abalo emocional da vítima é desenvolvido depois?

A ideia é que as cenas de estupro não sejam usadas apenas como pano de fundo, mas sim que tenham um propósito de nos fazer entender o trauma dessa violência e suas consequências na sociedade e tratar suas causas sistêmicas (lembrando que 1 em cada 5 mulheres foi ou será estuprada em toda sua vida).

Além dessas questões, penso que é importante adicionar também um quarto questionamento, proposto pela redatora Ana Recalde, do Collant sem Decote: 

4. O corpo nu da vítima é mostrado durante a cena como objeto de sexualização?

A violência contra a mulher – seja ela sexual, física, psicológica, patrimonial ou moral –  é uma realidade que precisa ser discutida e combatida sistematicamente no nosso cotidiano. Paratanto, é importante prestar atenção em como ela é retratada e cobrar mudanças para que a representação dessas situações seja um agente positivo de mudança, ao invés de um propagador de uma cultura machista, misógina e racista.


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