Aves de Rapina | Crítica

Aves de Rapina: Crítica sem spoilers
DC/Divulgação

Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa é uma jornada de autoconhecimento e autorrealização que celebra o feminino e todo seu poder! Tá de parabéns!

Nem sei por onde começar, mas preciso dizer que Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa me pegou de jeito e entregou uma personagem que gostaria de ter tido como referência quando mais nova. Claro, tirando o fato de que ela é uma supervilã, sádica que não exita em assassinar quem estiver em seu caminho. Mas até mesmo isso é importante. Faz pouquíssimo tempo que heroínas e supervilãs começaram a ter suas histórias retratadas no cinema de forma não hiper sexualizada ou mesmo que tivesse como público alvo mulheres e meninas reais e não uma projeção masculina.

Como o próprio título indica, esta é uma jornada de emancipação, uma jornada em busca de algo que seja só de Harley (Margot Robbie). Um universo todo seu em que ela é quem dita as regras do jogo. Para completar a trajetória, Arlequina encontra outras mulheres e a equipe acaba unida por necessidades comuns: lutar ou morrer, o que é uma das questões mais interessantes do longa escrito por Christina Hodson.

Harley Quinn, Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Renee Montoya (Rosie Perez) e Cassandra Cain (Ella Jay Basco) possuem características muito diferentes, mas que se complementam e se tornam mais fortes quando elas estão juntas. E, no final das contas, o filme é sobre a união de mulheres em busca de liberdade sem deixar de lado suas individualidades, exemplo disso, é o próprio desfecho da história (quem assistiu vai saber do que estou falando).

Não estou dizendo que este é um filme perfeito, com um arco sem defeitos e uma estética incrível (a estética é realmente incrível!). Porém, assim como Capitã Marvel e Mulher-Maravilha, é uma história importante e precisa ser contada. Não é possível que em pleno ano de 2020 Arlequina tenha que permanecer à sombra do Coringa. Já estava mais do que na hora de encontrar seu ponto de virada e estabelecer uma emancipação. Agora, temos um mundo inteiro de possibilidades para continuar a narrativa de Aves de Rapina.

Harley Quinn por Harley Quinn

Harley Quinn não é uma personagem que permite uma abordagem leviana. Paul Dini e Bruce Timm, os criadores da vilã/anti-heroína, descobriram isso na prática em Batman: A Série Animada. Ver Arlequina sendo maltratada enquanto jura amor eterno ao seu agressor logo se torna insustentável. Na animação, a solução veio da sua relação com Hera Venenosa, a guia da sua libertação. No cinema, passa ser uma questão de sobrevivência. Ou ela se emancipa ou morre. 

Ainda que exista a intenção clara de fazer um filme de equipe feminina, cada personagem tem um caminho próprio, com o mínimo de espaço para estabelecer empatia: Caçadora tem habilidades de assassina, mas zero traquejo social, Renee Montoya é um clichê policial com alma de heroína e Canário Negro prefere se calar por medo da responsabilidade da sua própria voz. O trabalho das atrizes faz das imperfeições das personagens uma rota para torná-las consistentes. 

Nessa dinâmica, quem acaba perdendo um pouco é Cassandra Cain, transformada em um mecanismo narrativo que movimenta a trama. Ainda assim, a figura fofa da atriz jovem compensa em alguma medida essa estratégia, principalmente na relação que desenvolve com Harley.

Aves de Rapina: Crítica sem spoilers. DC/Divulgação
DC/Divulgação

Arlequina absorve facilmente as ingenuidades e inconsistências do roteiro, distraindo o público com movimentos ágeis e pitorescos, sem perder o foco de realidade. Anteriormente, a roteirista já havia comentado sobre o processo de dar vida a Harley, o que significa que ela e Margot Robbie pensaram juntas como desenvolver a voz única da personagem e compreendê-la em toda sua complexidade. Isto, pode ser percebido em como a violência se tornou parte de uma realidade vista com as cores de um musical. Assuntos pesados – como abuso e sadismo – se tornam palatáveis enquanto, Quinn, dona do ponto de vista do filme, comanda as idas e vindas do enredo.

Aliás, parte da inovação de Aves de Rapina está justamente no fato de que é ela quem conta essa história e, por isso, a linha temporal pode ser um tanto bagunçada, mas é o que torna o filme tão único neste universo de super-heróis. Por vezes, somos levados ao futuro e, logo depois, voltamos para sermos apresentados a algum personagem que Arlequina esqueceu de mencionar antes e essa lógica temporal precisa ser construída pelo público, tornando a experiência do filme ainda mais imersiva e ativa.

Muita ação!

As cenas de luta, comandadas pelo diretor de John Wick, Chad Stahelski, são realmente incríveis e fogem daquela lógica de filmes de herói que segue a sequência: grandes explosões, lutas marciais coreografadas e armas gigantes. Claro que também há muito disso, mas os detalhes adicionados fazer toda a diferença, como uma arma que explode confetes brilhantes, fumaças coloridas e perseguições para proteger um delicioso pão com ovo.

Aves de Rapina: Crítica. (DC/Divulgação)
(DC/Divulgação)

Já o vilão, Máscara Negra, pode ser facilmente assimilado como uma caricatura de desenho animado, saboreado sem nenhum pudor por Ewan McGregor que assume o ridículo como recurso narrativo desse realismo “fantabuloso”. Ele é o retrato do homem em busca de poder que ao lado de Victor Zsasz (Chris Messina), amante e lacaio, o masoquista festeja o seu sadismo.


Diferente de Mulher-Maravilha ou Capitã Marvel, tão grandiosas que podem se tornam ideais, as personagens de Aves de Rapina não são a exceção à regra. Mesmo sob a ótica exagerada de Gotham, suas habilidades modestas e problemas comuns dão ao filme um propósito realista. 

O filme abusa de contrastes narrativos e visuais para explicar que força está além de todo e qualquer papel social, é muito mais coragem para aceitar a si mesmo e abraçar toda a complexidade que envolve a existência humana, mas, sobretudo, feminina.


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