A Maldição da Chorona | Crítica

Maldição da Chorona/Warner Bros/Reprodução
Maldição da Chorona/Warner Bros/Reprodução

Um suspense de terror familiar que inova em suas retratações do feminino

A Maldição da Chorona pertence ao mesmo universo de Invocação do Mal, o que acaba dando ao longa um certo apelo comercial, bem como uma sensação de familiaridade graças à fórmula que a série de filmes conquistou com a sua expansão. O longa marca a estreia do diretor Michael Chaves nas telonas e entrega um enredo básico, linear e sem grandes desdobramentos. A direção segue os mesmos passos de James Wan, sem grandes inovações.

É um trabalho honesto, pois cumpre o que propõe. Não se trata de um terror psicológico, como muitos dizem por aí. Antes, é muito mais um filme de jump scares que não se preocupa muito em desenvolver profundamente a história da maldição de origem mexicana, mas inova em suas retratações do feminino nos filmes de terror.

A Maldição da Chorona/Warner Bros/Reprodução

O roteiro abusa dos clichês de filmes do gênero, dando lugar a uma proposta com muito potencial, porém mal aproveitada em todo o seu desenvolvimento. A história é sobre uma mulher recém viúva e seus dois filhos, a família ainda está se recuperando da perda do pai, e a mãe, Anna, que é assistente social, se vê com alguma dificuldade em conciliar o cuidado dos filhos com o trabalho. Certa vez, se vendo prejudicada pela pena que seu chefe sente por ela, Anna se coloca para visitar uma outra mãe cujos filhos têm faltado constantemente na escola. Chegando lá, ela percebe que algo está errado e a mãe, Patrícia, prendeu as crianças em um armário e a casa está repleta de velas e símbolos ritualísticos. A assistente social rapidamente retira as crianças da casa e Patrícia é presa sob acusação de maus tratos.

Conforme a história avança, vamos descobrindo junto com Anna os motivos pelos quais a mãe trancou os filhos no armário. Na noite seguinte ao evento, as crianças que foram para um abrigo aparecem mortas e a mãe culpa a assistente social pelo ocorrido. Na medida em que a história avança, Anna se dá conta de que há algo errado com seus próprios filhos, eles andam assustados e manchas de queimaduras surgem em seus braços. Os dois estão sendo perseguidos pela mesma entidade que levou os filhos de Patrícia e só descobrimos isso quando a viúva interroga a mulher presa sobre os acontecimentos bizarros. A mulher revela que, quando seus filhos morreram, ela rezou para la llorona pedindo que ela levasse os filhos de Anna em troca dos seus.

Existe algo muito mais assustador na figura da chorona do que a maquiagem escurecida e as aparições violentas. A personagem é uma mãe que matou os próprios filhos como forma de se vingar do marido por conta de uma traição, assim ela acreditava que tiraria do homem tudo o que ele tinha de mais precioso: sua descendência. A lenda é um resgate da figura de Medeia da mitologia grega. No mito, Medeia também matou os filhos para se vingar do Marido, Jasão. Se trata de um mito de subversão dos papéis de gênero, e é um material muito rico e pouco explorado no longa. A chorona do filme, agora, vaga pelo mundo tomando os filhos alheios para si, tentando suprir a falta que as suas próprias ações causaram.

A Maldição da Chorona/Warner Bros/Reprodução

Chaves e o roteirista Tobias Iaconis conseguem construir personagens identificáveis para o público, isto por conta de aproximar os conflitos de Anna com o mundo real causando empatia. Em outras palavras, o filme consegue capturar a atenção do telespectador por causa do amor familiar e da nossa humanidade frente à situação enfrentada pela protagonista. E são estes elementos que fazem o filme desempenhar tão bem a ação que propôs. A cena da menina na banheira, por exemplo, é uma situação que aproxima o horror e o cuidado, ou seja, ao mesmo tempo em que existe o carinho de uma mãe com a lavagem dos cabelos da criança, há também a tentativa de afogamento e, ao final da cena, a filha se vê confusa quanto ao acalento que a mãe, Anna, oferece a ela.

Além disso, Linda Cardellini está excelente no papel de uma mãe nada idealizada, apenas um tanto embrutecida por conta dos problemas que está enfrentando. Seria muito fácil investir no papel ideal da mãe superpoderosa que consegue lidar com todas as questões que a cercam, mas ela e as outras figuras centrais do longa são personagens falhas em suas tentativas de proteção e afeto. Chorona, Patrícia e Anna refletem este ideal rompido de uma maternidade perfeita, da mesma forma que aquela Medeia descrita no século V a.C.. Como nas melhores narrativas, o natural e o fantástico se misturam para construir um mundo verossímil e envolvente, com elementos fundamentais na descrição de um ambiente realista o suficiente para ser assustador.

O trabalho de câmera também é um ponto que precisa ser exaltado no filme. Os planos longos acompanhando as personagens, por exemplo, no início seguem com as crianças correndo para dentro da casa, com aparições da figura assustadora em segundo plano e terminam numa cena assustadora num corredor esverdeado. Chaves ainda arrisca com a utilização de planos holandeses, que são aqueles em que a câmera gira deixando a cena de ponta cabeça, indicando que a assombração toma o controle da situação naquele momento.

Entretanto, o filme, diversas vezes, deixa essas inovações de lado para seguir uma linha mais segura e comercial, apostando em sustos premeditados e resoluções simples para situações complexas. O roteiro simplesmente deixa de lado algumas questões não respondidas, como as queimaduras nas personagens e o fato de a criatura esperar tanto tempo para realizar os assassinatos. Os desenvolvimentos do primeiro e segundo ato encontram-se em uma crescente, mas o clímax da ação é resolvido de maneira a cair no pitoresco. O padre se retira da situação e sugere um curandeiro que manipula alguns frascos e poções esquisitas, acende velas e quando a criatura chega ele desaparece e deixa a perseguição acontecer por alguns instantes.

A Maldição da Chorona tem méritos próprios, tanto que a única cena que a liga ao universo de Invocação do Mal é a menção que o padre faz a um caso com uma boneca e a própria personagem do padre. Ademais, as personagens secundárias, sobretudo os homens, são ausentes ou passivos nas diversas situações – vide o policial que não ajuda em nada, o padre que se retira da trama e o curandeiro engraçadinho, deixando as figuras femininas com a responsabilidade pela ação.

Por fim, o que pode ser um ponto positivo para alguns e negativo para outros, é que as cenas de jump scare são um pouco mais longas do que o habitual, o que faz com que a gente se acostume com a presença da Chorona e os sustos vêm mais da ambientação da cena do que da criatura propriamente.

Como já disse anteriormente, é um filme honesto, cumpre o que propõe, tem seus pontos positivos e negativos. Porém, por trás da aparência de filme B, vendendo sustos fáceis e maquiagem trash, este terror é vitorioso em entregar uma história que pode ser apreciada visualmente e em suas tentativas de inovação.

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