Duas Rainhas (Mary Queen of Scots)

Duas Rainhas/ Universal/ Reprodução
Duas Rainhas/ Universal/ Reprodução

Longa narra o conflito entre duas rainhas muito poderosas, mas cercadas pelas limitações de seu tempo

Duas Rainhas conta a história de Mary, rainha da Escócia, interpretada por Saoirse Ronan, e Elizabeth, rainha da Inglaterra, interpretada por Margot Robbie.

Mary, ainda criança, foi prometida ao filho mais velho do rei Henrique II da França, Francis. No entanto, logo depois da união, Francis morre e Mary retorna para a Escócia. A rainha era também uma das herdeiras do trono inglês, Mary era prima de Elizabeth, ligada aos Tudors através de sua avó, Margareth, que era irmã mais velha do Rei Henrique VIII.

O filme, Mary Queen of Scots, marca a estreia da diretora Josie Rourke nas telonas. Ela já é conhecida por suas direções no teatro, por isso, algumas cenas são bem características de palcos, com cortes bem suaves e planos sequência bem vistosos que tornam toda a experiência grandiosa.

No entanto, o roteiro, baseado no livro “Queen of Scots: The True Life of Mary Stuart”, do escritor britânico John Guy, torna a trama episódica, uma vez que são muitos anos de história e muitos acontecimentos importantes para serem traduzidos em pouco tempo de filme. Nesse sentido, o filme é ambicioso e as escolhas de foco narrativo parecem um tanto dispersas. O título em português nos dá pistas de um suposto propósito, mas não consegue nos fazer esquecer de todos os conflitos que permeiam o hipotético tema central.

Duas Rainhas/Universal/Reprodução

A trama começa pelo fim, vemos uma rainha Mary com a idade avançada em um vestido vermelho pronta para ser executada. Então, a cena retorna para o momento em que a rainha chega à Escócia e se dirige para o castelo onde encontra seu meio-irmão, James Stuart, conde de Moray, que governava em seu lugar até que retornasse ao país. Mas os conflitos entre católicos e protestantes e a tensão existente entre a Escócia e a Inglaterra dificultam ainda mais o governo de Mary.

A obra de Rourke, segue alguns pressupostos da história real, entretanto, toma algumas liberdades que o formato ficcional permite e insere discussões contemporâneas no enredo, como o tema do estupro marital, a questão da homossexualidade do italiano David Rizzio (Ismael Cruz Cordova) e, sobretudo, o fato de serem duas mulheres governando em uma época na qual isso era “contra a natureza, contra Deus”, segundo uma das personagens do longa.

A problemáticas mais marcantes que o filme trás é questão de gênero e como isso vai interferir diretamente no futuro das duas herdeiras. Afinal, são duas mulheres governando dois países extremamente poderosos. Ambas se encontram rodeadas de homens que querem a todo custo derrubá-las. Vemos o irmão de Mary se organizando com outros integrantes do conselho da rainha e até mesmo com John Knox (David Tennant), líder dos protestantes, para dar um golpe e tirar a irmã do poder. Inclusive, junto a outros nobres, ele foi capaz de matar um dos amigos da rainha a facadas na frente dela, acusando o italiano David Rizzio e a própria rainha de terem um caso. Além disso, Mary precisa produzir herdeiros para aumentar a ameaça ao governo de Elizabeth, sendo a pressão para que isso ocorra vem de todos os lados.  Na Inglaterra, para Elizabeth o tema “casamento” também causa preocupação e a pressão da corte não cede.

Sobretudo, Elizabeth e Mary tomam rumos completamente diferentes. A rainha da Inglaterra, tão bem interpretada por Margot Robbie, assume a postura de um soberano implacável e aprende com os erros da mãe, Ana Bolena, a não deixar que nada diminua seu poder. Ela declara ser tão poderosa quanto qualquer homem que almeja poder, afirma também ter se tornado homem perante seu reinado. Mary também reconhece a fragilidade de sua posição, chega mesmo a afirmar que para uma rainha não há amigos, só o seu país. No entanto, diferente de sua prima, busca se blindar pelos meios disponíveis para sua época, através de um casamento e gerando herdeiros.

Beau Willimon, roteirista do longa, não resistiu à tentação e uniu estas duas rainhas em uma cena de tirar o fôlego com direção impecável. Numa espécie de jogo de ver e não ver, Elizabeth, agora com o rosto coberto de marcas causadas por infecções na pele e com o couro cabeludo quase careca, encara Mary, que ainda mantém sua beleza jovial. A rainha, despida de toda sua glória, se dirige a Mary afirmando que “em tudo você me superou”, mas “seus dons serão também a sua ruína”. A rainha diz isso, não como ameaça, mas em relação às estratégias escolhidas por sua prima que agora pede ajuda da Inglaterra para recuperar seu país. Elizabeth sabe que não pode realizar as solicitações de Mary por razões que estão além de si mesma e oferece apenas asilo e proteção. O filme se encerra com a execução de Mary, anos depois, acusada de planejar e atentar contra a vida de Elizabeth.


Duas Rainhas/Universal/Reprodução

O longa é implacável em retratar a trajetória esplendorosa das duas rainhas até a ruína. Elizabeth, no final de seu reinado, acaba por se tornar uma caricatura de governante, mas assegura a sucessão de Henry, filho de Mary com Lord Dudley. Mary, ingenuamente, morre acreditando que se tornaria um mártir. A força das duas governantes é muito bem ilustrada pela direção de Rourke e as atuações fortes constroem um longa visualmente potente, mas que peca em alguns momentos com um roteiro abarrotado de fatos importantes e inserções anacrônicas que talvez não partam de um interesse genuíno em explorar as questões propostas.

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