Entre Facas e Segredos | Crítica

Entre Facas e Segredos crítica
Paris Filmes/Divulgação

Entre Facas e Segredos é uma homagem deliciosa e divertida ao legado de Agatha Christie. O diretor Rian Johnson oferece risadas, reviravoltas e todas as emoções que o convívio em família pode trazer, mas tudo isso sem ter pressa em chegar a algum lugar.

Descrevendo sua postura em relação ao cinema de gênero, certa vez, o escritor / diretor contou que adora o tipo de conversa ligeiramente metafórica que é possível abrir entre uma história e seu espectador, uma conversa que pode estabelecer um conjunto compartilhado de regras que poderão ser subvertidas logo em seguida.

Essa é uma característica da carreira de Johnson desde que seu filme de estréia, de baixo orçamento, A Ponta de um Crime (2005), transpôs uma narrativa sombria noir dos anos 1940 para os arredores ensolarados de uma escola moderna da Califórnia, com resultados atraentes. Em Looper de 2012, ele transformou uma aventura de viagem no tempo em uma meditação sombria sobre as consequências da solução de problemas através da violência. Mais recentemente, seu filme de Star Wars de 2017, O Último Jedi, indignou alguns fãs que não achavam que a mitologia em constante evolução da série deveria estar em discussão.

Bom, mas estamos aqui para falar de Entre Facas e Segredos, onde Johnson retorna às suas raízes com uma homenagem atualizada aos romances policiais de Agatha Christie e às adaptações descaradamente autoconscientes para o cinema na qual ele lidera um elenco de estrelas através de um mistério de assassinato.

A vítima é um famoso autor de livros de mistério, sua casa é, como descreve o policial vivido por Lakeith Stanfield, um tabuleiro de Detetive, e todos os membros da sua família são, é claro, altamente suspeitos. Ao mesmo tempo, esses elementos tradicionais são dispostos com segundas intenções. O interesse de Johnson, que assina o roteiro e a direção, não é apenas referenciar clássicos do gênero, mas estudá-los enquanto autor — e nesse processo falar sobre meritocracia e imigração nos EUA com uma seriedade leve e comprometida.

Segundo o próprio detetive, Benoit Blanc (Daniel Craig), que é contratado misteriosamente para solucionar o crime, a qualidade de uma história de mistério não depende apenas da sua solução, mas envolve toda uma lógica de construção narrativa: quem, o quê, onde, como, quando e por quê.

O cenário é uma mansão gótica na Nova Inglaterra, onde o famoso escritor Harlan Thrombey (Christopher Plummer) recentemente encerrou as comemorações de seus 85 anos ao ser encontrado morto em seu estúdio no sótão. Toda a situação leva a família a pensar que se trata de um suicídio, mas a contratação de um famoso investigador reabre o caso questionando qual dos membros da família Harlan (descrita como uma família de “super-empreendedores”) foi o responsável por cortar a garganta do patriarca. Afinal, o velho passou a noite anterior acertando as pontas soltas em sua família e “limpando a casa”, ou seja, removendo todos que se aproveitavam de sua fortuna.

Apenas a enfermeira e cuidadora de Harlan, Marta Cabrera (Ana de Armas), parece estar acima de suspeitas, já que ela vomita sempre que está mentindo, tornando impossível qualquer tentativa de esconder fatos do caso. Quanto à filha mais velha (Jamie Lee Curtis), ela não deixa de pensar nos jogos que o pai costumava fazer e só está esperando qual será a grande revelação… O detetive do caso se descreve como um “observador passivo da verdade”, mas uma rede de intrigas envolve sua própria presença no caso, afinal, quem o contratou? E para quê?

Assim como nos melhores romances policiais, tudo é configurado e sorrateiramente sinalizado nos momentos de abertura do drama, mas só nos damos conta ao olhar uma segunda vez para as pistas. O triunfo do filme está no desenrolar da trama e a cada nova volta perdemos algo de vista que será trazido mais adiante. No entanto, nada disso faria sentido se não nos importássemos com os personagens, que permanecer com o lado positivos das caricaturas bem trabalhadas.

Construído com base em um roteiro bem humorado e detalhado que oferece mais falas engraçadas do que a maioria das supostas comédias do ano, Entre Facas e Segredos mantém um coração humano pulsante no qual os punhais costumam mergulhar. Vale lembrar que todo esse mistério está se desenrolando na esteira de uma tragédia familiar, com a performance imperiosa de Curtis capturando o equilíbrio entre o desprezo e a empatia por essa história.

Toni Collette é suspeita de assassinato em Entre Facas e Segredos. (Fonte: Paris Filmes/Divulgação)
Toni Collette é suspeita de assassinato em Entre Facas e Segredos. (Paris Filmes/Divulgação)

Quanto ao assassinato, talvez Ransom (Chris Evans) a ovelha negra da família, tenha cometido o crime, já que ele foi visto em uma discussão com seu avô na noite do aniversário. Ou Walt (Michael Shannon), cujo sucesso dependia da bondado do pai. Ainda restam o genro bizarro Richard (Don Johnson) e a viúva Joni Thrombey (interpretada pela gloriosa Toni Collette).

Por fim…

Como nos romances de Christie, também há um forte elemento de sátira social. Embora Marta seja repetidamente informada de que ela é “parte da família”, ela não foi convidada para o funeral de Harlan, levando mais de um suspeito rico a insistir confidencialmente: “Eu pensei que você deveria estar lá, mas fui vencido.” Há também o frequentemente ridicularizado Blanc continua sendo um peixe fora d’água neste ambiente enclausurado, apresentando uma fachada indiferente que distrai os desavisados ​​de seu objetivo mais sério.

Ana de Armas e Daniel Craig em Entre facas e Segredos. (Fonte: Paris Filmes/Divulgação)
Ana de Armas e Daniel Craig em Entre facas e Segredos. (Paris Filmes/Divulgação)

Tudo isso acontece em uma casa que é mais parece um tabuleiro gigante repleto de janelas artificiais e escadas rangentes, facilmente ouvidas por qualquer um na casa. As câmeras percorrem os cômodos com um entusiasmo furtivo, deslizando por todos os personagens, apresentando a todos igualmente como suspeitos. As cenas se intercalam entre passado e presente, estabelecendo um diálogo dinâmico com a condução da história.

Por fim, a cereja do bolo é a trilha sonora tão nítida e dramática quanto as facas expostas na sala do interrogatório, que apontam acusadoramente cada suspeito enquanto aguardamos que uma delas caia e nos aponte o culpado.


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