O Oscar não se importa com as histórias das mulheres

O Oscar não se importa com as histórias criadas por mulheres
Fonte: A24, Disney, STX pictures/Divulgação

Há muito para se decepcionar com as indicações ao Oscar, mas o que nos deixou mais irritados não é o desprezo, mas a obsessão contínua da Academia por histórias com perspectivas masculinas e sobre como este é um sintoma sério de uma cultura que desvaloriza as perspectivas das mulheres a respeito do mundo e da sociedade.

Este ano, filmes incríveis foram lançados sobre mulheres que contaram novas histórias sobre experiências e lutas – mas as únicas histórias de mulheres com as quais o Oscar parece se importar são recauchutagens de velhas narrativas (brancas, de classe alta, hetenormativas), vulgo Adoráveis Mulheres. E mesmo neste filme eles não reconhecerão sua diretora.

Veja os filmes que foram excluídos. As Golpistas não deveria apenas ter recebido uma indicação a Jennifer Lopez por seu incrível trabalho, deveria ter concedido a Lorene Scfaria uma indicação de melhor direção e melhor roteiro original em vez de Tarantino. Mas não, uma história sobre profissionais do sexo que lutam contra um mundo injusto e se voltam para o crime é muito vulgar, histórias de mafiosos e assassinatos em que as mulheres mal falam são obras de arte.

É especialmente preocupante porque As Golpista não é apenas um filme sobre mulheres, mas mulheres de diferentes raças e etnias. Essa também é uma das razões pelas quais estamos todos tão loucos por A Despedida ter sido esnobado. Um filme de mulheres asiáticas e de uma família asiática: por que isso é menos merecedor de elogios do que um filme sobre homens brancos e seus carros?

Nos aprofundando um pouco mais, até nos filmes feitos pelos homens, Entre Facas e Segredos, merecia muito mais destaque do que apenas uma indicação para melhor roteiro. Deveria ter sido indicado a melhor filme, mas é uma história sobre uma mulher “marginalizada” que coloca o poder que a nossa sociedade capitalista, masculina, racista, xenofóbica no lixo, porque ele não serve a ela.

Note que até mesmo a categoria de melhor animação teve suas nomeações confusas. Como Frozen 2, uma das narrativas femininas mais emocionantes e poderosas dos últimos tempos, nem sequer recebeu uma indicação para melhor longa de animação, mas sim vários filmes obscuros que ninguém viu com protagonistas masculinos? Frozen 2 não conseguiu nem nomear a música mais emocionante e afirmativa, “Show Yourself“.

A elevação dessas histórias masculinas como Coringa ou O Irlandês não é apenas um insulto, é preguiçosa. As categorias técnicas são, como sempre, quase todas as repetições dos mesmos indicados aos melhores filmes, como se houvessem apenas 15 filmes feitos este ano e nada além dessas poucas narrativas.

Mesmo quando se trata da categoria de melhor atriz, as mulheres precisam se encaixar em qualidades muito específicas e estreitas para ser reconhecidas.

Sabemos que este tipo de premiação não significa grande coisa no mundo real, mas elas ainda fazem parte da nossa cultura e, em dias como esse, somos lembrados da função que estes prêmios desempenham: manter o status quo, reproduzir uma cultura opressora e manter o patriarcado e a estrutura de classe intactos.

Em uma recente entrevista à Vanity Fair, a diretora da Adoráveis Mulheres, Greta Gerwig, resumiu isso perfeitamente:

“Ainda acho que temos uma hierarquia de histórias. Eu acho que o topo da hierarquia é a violência masculina – homem com homem, homem com mulher etc. Acho que se você olhar para os livros, filmes e histórias que consideramos “importantes”, esse é um tema comum, explícita ou implicitamente.”

Essas indicações apenas afirmam o que Gerwig diz aqui. Os filmes do Oscar são relíquias, que tentam sobrepor padrões culturais e sociais que estavam desatualizados décadas atrás. Os velhos brancos decidem há muito tempo o que conta como um filme de prestígio e filmes subversivos sobre mulheres não contam.


Algumas das indicações, mesmo aqueles que se concentram na violência masculina – como 1917, que é uma façanha impressionante de produção que mostra o verdadeiro horror da guerra, são realmente fascinantes. Dentre as indicações merecidas também estão presentes filmes como Parasita e História de um Casamento. E, claro, não podemos de deixar de fora o representante brasileiro Democracia em Vertigem.

A cineasta responsável pelo documentário, Petra Costa, comentou em suas redes sociais, nesta segunda-feira 13, sobre a indicação ao Oscar e protestou contra o que chamou de “epidemia da extrema direita” no país:


Logo mais teremos mais conteúdos focados nos filmes indicados e um comentário especial acerca de Democracia em Vertigem. Então, não deixe de nos seguir nas redes sociais!


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