Por Lugares Incríveis | Crítica

Por Lugares Incríveis: Crítica
Netflix/Divulgação

“Aprendi que existem coisas boas no mundo, se você procurar por elas.”
— Por Lugares Incríveis

Adaptação da Netflix tem uma história incrível nas mãos, mas se perde ao tentar abordar temas complexos de forma nebulosa

A sensação de assistir Por Lugares Incríveis é de familiaridade. Não dá pra esquecer aquele sentimento gostoso a história desperta no espectar com um enredo bem simples que se propõe a discutir temas densos como depressão, suicídio, relações amorosas e, o mais tabu de toda história da humanidade: a morte.

A premissa é bem comum e se popularizou nas últimas décadas, muito por conta de filmes baseados em livros de autores como John Green, que tem como foco essa temática mais teen. Desde Um Amor para Recordar – esse inspirado na obra de Nicholas Sparks – trocaram-se os conflitos sociais ou familiares por problemas de saúde dos mais variados, do câncer à paraplegia. As principais diferenças entre as produções estão nos detalhes e este aqui se destaca positiva e negativamente.

A protagonista da trama é Violet Markey (Elle Fanning), uma adolescente de 17 anos que sofre com o luto pela morte da irmã mais velha após um acidente. Afastada dos amigos, ela sobe no parapeito da ponte onde ocorreu a tragédia buscando dar fim à própria vida. É nesse momento que aparece Theodore Fitch (Justice Smith), um colega da escola que a ajuda a desistir do ato. A partir daí, o garoto tenta uma aproximação e, após serem unidos por um trabalho escolar, tentam redescobrir juntos os bons momentos da vida.

Baseada no livro homônimo de Jennifer Niven, a adaptação também toca em temas sensíveis e pouco falados entre os jovens. Muitos sofrem com o sentimento de solidão, de ser mal interpretado, o medo de nunca ser amado por quem você realmente é – ou nunca saber quem você realmente é. Apesar de a protagonista ser Violet e sermos introduzidos à trama pelo seu luto, quem atiça a curiosidade mesmo é Finch. No começo, apesar dos aparentes problemas disciplinares e a dificuldade de se abrir com o psicólogo do colégio (Keegan-Michael Key), ele mostra ser um garoto alegre e bem resolvido, no maior estilo Augustus Waters de A Culpa é das Estrelas. Pouco a pouco, vamos entendendo que é um personagem tridimensional, com traumas tão profundos quanto os de Violet, mostrando que ele busca a salvação tanto quanto ela.

A aparente depressão de Finch lança uma longa sombra sobre todos os aspectos de sua vida. Seu comportamento errático – causando destruição e sumiços por longos períodos – lhe rendeu o apelido de “aberração” entre os colegas e o bullying tem grande influência e define a sua personalidade, potencializando cada sentimento negativo que Finch traz em sua bagagem.

Tanto destaque é muito bem sustentado pela atuação de Smith, que vem de filmes mais populares como Jurassic World: Reino Ameaçado e Pokémon: Detetive Pikachu. O ator não decepciona e se iguala a Fanning, que carrega mais experiência em filmes dramáticos. São palpáveis as angústias e alegrias de Violet em sua interpretação. O que não é tão crível, contudo, é o desenvolvimento da relação entre os dois, algo que torna a história tão especial para os leitores de Níven.

No roteiro, escrito pela própria autora do livro e Liz Hannah, o interesse de Finch em Violet após o primeiro encontro mais parece uma cisma do que atração – para não dizermos obsessão. Tão distante e apática com sua vida, a protagonista também parece sair de seu limbo com certa facilidade, tamanha a velocidade com que a direção de Brett Haley coloca ambos apaixonados. Esses problemas se acentuam conforme a relação ganha conflitos, e as atitudes de Finch despertam uma certa angústia se compararmos aos primeiros momentos do personagem. A impressão é de que nos apresentaram personagens interessantes, mas que foram mal aproveitados dentro de uma história tão interessante e tão complexa.

Apesar de tocar em diversos temas importante e questionamentos humanos que ocuparam filósofos de diferentes épocas, não espaço para aprofundar tais discussões, elas são meramente mencionadas. De alguma forma, sabemos que Violet e Finch estão passando por um momento turbulento com vários sentimentos confusos, mas em nenhum momento fica claro que realmente está acontecendo com eles. Nenhum adulto está presente para ajudá-los a encontrar ajuda, ainda que vemos as figuras dos pais de ambos os protagonistas.

Com um desfecho ainda mais inconstante, o longa parece perder o rumo da história na tentativa de unir a essência da obra de Niven com o formato adolescente já conhecido de outras produções. É possível imaginar o diretor pensando: “Preciso falar de temas tabus, mas não posso me esquecer de fazer o público chorar, que é o mais importante“.

Diferenças do livro

O longa da Netflix trás algumas diferenças em relação ao livro de origem da história e talvez isto possa ter causado uma certa confusão no enredo.

A mais notável é a cena inicial, na qual os dois personagens se conhecem. No filme, Finch encontra Violet prestes a cometer suicídio se atirando de uma ponte. No livro, os dois se conhecem em cima de uma torre da escola onde estudam, quando os dois estão prestes a se atirar do alto. É, neste momento que eles se conectam e passam a tentar superar as dificuldades juntos.

Quando assistimos a construção dessa relação não é possível crer no laço que se construir entre Finch e Violet porque não vimos isso acontecer.

Ainda, enquanto o livro mostra as perspectivas de Finch e Violet, o filme enfoca muito mais no lado da jovem. Não que o personagem masculino seja deixado de lado, porém fica a sensação de que sua história poderia ter sido mais aprofundada.


Por Lugares Incríveis fala sobre organizar a bagunça, buscar o lado bom em tempos difíceis, tentar buscar razões para sorrir enquanto se quer chorar. O principal legado da obra é contar que a dor jamais pode ser escondida, é uma ferida que precisa ser curada aos poucos, e mostrar que internalizar sentimentos ruins tentando afastá-los só prejudica a própria saúde mental. Com contato profissional e uma rede de apoio sólida, a vida pode ser mais tranquila para se reorganizar, transformar e amadurecer.

Se você está passando por um momento difícil não deixe de procurar ajuda. O próprio Sistema Único de Saúde vai saber orientar você.


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