Você Nem Imagina | Vale a pena? É bom?

Você Nem Imagina: Vale a pena? É bom?
Netflix/Divulgação

Você vai querer dar um abraço na Netflix depois de assistir este filme!

Amor é apenas o nome do desejo e da busca pelo todo“. É com uma citação do diálogo ‘O Banquete‘, de Platão, que Você Nem Imagina começa. Com isso, já dá para saber o tom que a história irá seguir: é uma busca pela compreensão do amor.

Não que seja uma busca obstinada e compulsiva, mas acidental. É só o caminhar que leva as personagens ao entendimento dos sentimentos que um desperta no outro.

Acho que estou me apressando. Vamos do começo…

A história se passa em uma cidade chamada Squahamish e acompanha Ellie Chu (interpretada por Leah Lewis), uma aluna chinesa que desenvolveu uma “pequena indústria” de vendas de trabalho para seus colegas de turma. Ellie é bem mais esperta e interessada nos estudos do que as pessoas ao seu redor e sua professora de inglês está ciente do potencial da garota e sempre a incentiva a se aplicar mais para entrar na faculdade. Aliás, a professora sabe que ela costuma fazer os trabalhos dos outros alunos e só permite isso acontecer porque ler os ensaios reais dos outros alunos seriam muito pior.

Um dia, Ellie é abordada por Paul Munsky (Daniel Diemer), um jogador de futebol mediano, gentil, sombrio e que tem alguma coisa relacionada à salsicha que a família dele produz e ele jura que vai muito bem com tacos. Enfim, Paul quer que Ellie escreva uma carta para ele enviar para Aster Flores (Alexxis Lemire), a garota mais bonita da escola.

Secretamente, Ellie tem uma queda por Aster e, depois de relutar um pouco (e se dar conta de que precisa de $ 50 dólares para ajudar a pagar a companhia elétrica), ela acaba aceitando o job. Acontece que enquanto Ellie escreve ela decide acrescentar uma citação (não sinalizada) de Asas do Desejo, um filme de Wim Wenders de 1988. Aster, assim que recebe a carta, reconhece a referência e então Ellie se torna mais comprometida com a troca de correspondências em nome de Paul.

“(…) buscando por uma onda de amor que cresçam em mim”.

essa era a citação

É dessa forma que Ellie e Aster – sob a premissa de que Paul, comicamente desarticulado, está de alguma forma escrevendo essas palavras – entram em uma elaborada troca de cartas que faz refe^rncias a grandes autores, história, teoria da arte e a necessidade de escapar da atual realidade. Na verdade, é nesses pontos da trama que o filme brilha e constrói seu charme, tanto que começamos a nos perguntar se estamos sendo preparados para algum tipo de reviravolta que levará a história para uma direção mais chocante.

Essa reviravolta não vem, mas a história acaba entrando em um território mais interessante: Paul, que fomos levados a acreditar que era apenas um bobo ignorante, prova ser um cara relevante, cativante e atencioso, que à sua própria maneira – lembra do taco com salsicha? Então… – constrói trocas inspiradoras com Ellie. É através de Paul que Ellie começa a abrir a concha que construiu em volta de si para se proteger das ondas do mar (evoque a citação que ela usou com Aster). E, Aster, que parece noiva do outro jogador de futebol (esse aqui é um ignorante real), começa a questionar os rumos de sua vida e todas as decisões que tomaram por ela.

Ficamos tão envolvidos na leveza da troca de correspondências e nas interações dos três protagonista que vamos percebendo que toda duplicidade – todo caminho que se abre em duas alternativas – se esvai e a conexão humana de torna completamente metafísica. Deixa eu tentar ser mais clara… Nos movimentos de um mundo de aparências, ou seja, daquilo que percebemos na história a partir dos nossos sentidos, as cenas que vemos e as falar que ouvimos, os detalhes da trama são construídos além da aparência, em um segundo plano, que é o plano que percorre toda a história, que é a busca pela compreensão do amor e o sonho de adolescentes precoces de um mundo melhor.

Filmado e dirigido por Alice Wu, a tela se ilumina com palavras, imagens e mensagens de texto, tudo isso contribuindo para um tipo de conexão dos sonhos, onde são as palavras desses personagens que ajudam a transcender o ambiente mundano e sem saída. Em uma das cenas, durante um encontro casual entre Ellie e Aster, as duas flutuam na água, enquanto ouvem música e falam da solidão, Deus e o futuro. Essas reflexões sugerem uma realidade alternativa na qual as coisas são menos confusas e mais simples, onde as esperanças são realizadas. Na maioria dos romances que vemos ultimamente, nos apaixonamos pelos personagens, em Você Nem Imagina, a gente se apaixona pelo nosso próprio desejo.


A comédia romântica nunca foi original. O gênero tem até alguns modelos narrativos muito simples, vários deles com séculos de idade. No entanto, aqui, a honestidade com que o filme lida com essa força central da existência humana: o desejo – pelo amor, pela completude, pela constância, etc. -, é tão carinhoso e reconfortante que dá uma vontade imensa de dar um abraço em seus criadores por proporcionar a existência desse mundo em que não estamos sozinhos com todas as frustrações e necessidades.


Não deixe de conferir a história que inspirou o filme!


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