O que aconteceu com Game of Thrones?

Game of Thrones
Game of Thrones/HBO/Reprodução

O problema não é o fato de Daenerys ter enlouquecido, mas sim como este caminho foi trilhado. O problema não foi a 8ª temporada, e sim tudo o que veio antes

O quinto episódio da oitava temporada, “The Bells”, definiu o horror de uma cidade inteira ameaçada por um dragão. Daenerys Targaryen, montando Drogon, devastou sistematicamente Porto Real, de um ponto a outro, para garantir que ninguém sobrevivesse e se rebelasse contra ela. Foi uma sequência arrebatadora e perturbadora ao mesmo tempo, uma dramatização ideal do tema central de Game of Thrones: a guerra é o inferno.

O acontecimento foi incrível visualmente, porém não fez absolutamente nenhum sentido narrativo.

Não havia uma razão consistentemente construída para Daenerys queimar toda a cidade com pessoas que não significavam nenhuma ameaça para ela. A personagem já realizou atos cruéis antes, mas nunca matou apenas por matar. Foi como se a Mãe de dragões tivesse se tornado a “mad queen” simplesmente porque a série precisava que ela chegasse até esse ponto. Em teoria, o desenvolvimento para transformar Daenerys em uma vilã é interessante. Mas, na prática, sua execução foi desleixada e apressada, tanto que a própria narrativa parece não comportar essa curva da personalidade da protagonista tornando o acontecimento estranho aos olhos do público.

No passado, as crueldades de Daenerys foram justificadas pela lógica interna da pertsonagem

Ela matou pessoas desamparadas que se recusaram a ‘dobrar os joelhos’, como o pai e o irmão de Samwell Tarly, e até mesmo aqueles que cometeram crimes e mereciam punição, como os senhores de escravos de Yunkai e Meereen. A rainha Targaryen depositava todas as suas fichas no que acreditava ser a justiça, inclusive se colocava inferior à própria lei. Sua crença profunda em uma justiça ideal a levaram a ultrapassar os limites da moralidade, convencida de que seus objetivos nobres justificavam os meios tirânicos.

Esse tipo de excesso sempre foi condizente com a personagem, ela sempre se viu empenhada em uma missão moral – abolindo a escravidão, restaurando sua posição como governante, ou “quebrando a roda” que mantém a manutenção do sistema sobre o Trono de Ferro.

Entretanto, em nenhum momento, ela demonstrou traços dessa insanidade genocida. Sua decisão de queimar Porto Real não pode ser justificada como um tipo de vingança pelas mortes de Rhaegal e Missandei. Se fosse sobre isso, Dany teria voado direto para a fortaleza vermelha e teria derrubado o castelo inteiro e não a cidade.

O genocídio foi um elemento novo introduzido à personagem em um intervalo curto de tempo. E vimos isso acontecer do ponto de vista de quem estava no chão. Uma vez que a Mãe dos dragões decide ignorar o sinal dos sinos e iniciar o massacre, nos afastamos da sua perspectiva e consequentemente da sua motivação.

Game of Thrones/HBO/Reprodução
Game of Thrones/HBO/Reprodução

No especial “por dentro do episódio”, os criadores de Game of Thrones explicaram que obscurecer as razões de Daenerys foi uma escolha deliberada, uma tentativa de descrever como é ser vítima do massacre ao invés de retratar o ponto de vista do assassino. Até então, tudo bem, essa mudança de perspectiva é inovadora. Porém, o problema é o salto que as ações da personagem dão. Passamos inúmeras temporadas com Dany balanceando seu temperamento e, em menos de dois capítulos, a personagem muda por completo sua conduta. O episódio até que tentou justificar essa mudança de rumos introduzindo falas antigas de pessoas discutindo o impulso dos Targaryen à loucura no início de “The Bells”, mesclando essas falas com imagens das perdas recentes da protagonista. Isso deixa ainda mais claro as tentativas dos criadores em mostrar um caminho coerente de Dany até a insanidade, mas foi um truque que nem mesmo os envolvidos pareciam aceitar.

Os maiores erros foram cometidos na sétima temporada

Foi em julho de 2016 que a HBO confirmou que Game of Thrones teminaria na oitava temporada. Depois de muita especulação, as duas últimas temporadas seriam mais curtas, com um número menor de episódios, mas eles seriam mais longos. Além disso, com a falta dos livros como base do roteiro, a história ficaria totalmente a cargo dos showrrunners.

A última temporada parecia mostrar uma direção clara, mas agora sabemos que as peças estavam sendo movidas aleatoriamente e sem propósitos consistentes. Exemplo claro disso, foi o fiasco do episódio “Além da Muralha”, no qual o ‘esquadrão suicida’ de Jon Snow rouba um white walker para tentar convencer Cersei a ajudá-los. No entanto, quais foram os resultados disso para a totalidade do enredo? Dar ao Rei da Noite um dragão de gelo e derrubar a muralha. Só assim as forças seriam equilibradas. Cersei não precisava ver o zumbi para decidir que não iria ajudar, nem mesmo o arco de Jaime faz sentido. O assassino do rei foi para Winterfell, dormiu com a Brienne e depois voltou para morrer com a irmã. Ele bem que tentou fazer a coisa certa, mas o roteiro o levou de volta ao ponto inicial, numa tentativa forçada de conclusão de arco. E quanto ao retorno de Nymeria? Ele foi tão impactante quanto nos levaram a acreditar? Sam aprendeu alguma coisa relevante na Cidadela? Qual o impacto em Jaime e Cersei ao descobrir quem realmente matou Jofrey?

Dedicar tanto tempo para um enredo inconsequente foi ruim considerando o tempo limitado para a conclusão da série. Nessas duas temporadas, eles precisaram fazer Jon e Dany ficarem junto, exterminar vários núcleos, como Dorne, Jardim de Cima e as Ilhas de Ferro, transformar Sansa em uma governante sensata (este arco foi muito bem acertado) e a Mãe de dragões em uma rainha solitária e cruel. Com a decisão de deixar duas grandes batalhas para esta última etapa, não sobrou muito tempo para desenvolver os caminhos necessários, enquanto na penúltima temporada foram dedicados dois episódios para a expedição além da muralha.

O final da série ainda pode ser espetacular

Não podemos subestimar o poder de contar uma boa história. Muitas vezes, falamos como um enredo é bom ou ruim, mas a forma com a qual ele é contado é o que torna uma história arrebatadora ou não. É o que permite que nós possamos nos conectar com um determinado mundo inventado. Game of Thrones foi um desses shows que foram capazes de transformar um enredo cheio de fios interligados em algo imenso e visceral para todo tipo de público.

Talvez o que tenha feito a série tão universal tenha sido a forma de abordar a temática da morte. De todas as maneiras que o programa contou sua história, este foi o mais celebrado. Ele reflete o verdadeiro significado de se estar vivo, que é poder deixar de existir a qualquer momento. Vimos isso com Ned Stark, com Robb, com Olenna e muitos outros personagens. Isso foi um exemplo de como contar algo com um propósito claro, aparentemente ao acaso, desafiando convenções e fórmulas, mas com suas pontas muito bem articuladas. A habilidade estava em nos fazer pensar que esta narrativa cuidadosamente trabalhada era aleatória.

Game of Thrones/HBO/Reprodução
Game of Thrones/HBO/Reprodução

O que decepciona é o fato de que, agora, a morte perdeu seu significado inicial. Muitos ainda morrem, mas são apenas personagens secundários ou que já não tem tanta representatividade em cena. Já as personagens principais, tem uma espécie de blindagem, até mesmo quando não parece possível elas sobrevivem e saem ilesas de um combate, como Arya, Daenerys, Jon Snow etc. Quando o enredo quer que alguém morra, isto é feito de maneira jocosa beirando o irreal dentro da lógica daquele mundo, como Rhaegal, Jorah, Missandei, etc.

Mesmo que a jornada tenha sido confusa, o fim que Game of Thrones vem construindo é claro. Há um desfecho em mente, o problema foi o caminho traçado até lá. O episódio “The Bells” pode não ter sido tão bom assim, mas se ignorarmos tudo o que veio antes até podemos aceitá-lo. Ainda há esperança de que o final consiga amarrar essas pontas jogadas de uma forma satisfatória e as ideias centrais tenham uma conclusão adequada. E se isso não acontecer, é a prova de que os problemas narrativos de Game of Thrones estão mais enraizados do que uma hora de televisão possa resolver.

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