Dica de leitura: Um Teto Todo Seu, de Virgínia Woolf

Leituras: Um Teto Todo Seu, de Virgínia Woolf
Foto pessoal

“(…) pensei no órgão ribombando na capela e nas portas fechas da biblioteca; e pensei como é desagradável ficar presa do lado de fora; e pensei em como talvez seja pior ficar presa do lado de dentro; e, pensando na segurança e prosperidade de um sexo, na pobreza e na desproteção do outro e nos efeitos da tradição e da falta de tradição sobre a mente de um escritor“.

Um Teto Todo Seu, pg. 39.

Acabo de terminar a leitura do ensaio de Virgínia Woolf, Um Teto Todo Seu, e me espanto com o fato de que quase 100 anos depois nós, mulheres, continuamos a ser “gatos sem rabo”.

Virgínia busca desenvolver a relação entre mulheres e a ficção e conclui que, para escrever, uma mulher precisa de dinheiro e de espaço não mais do que suficientes para si. É através de pseudônimos que ela Woolf narra a sua tese. Sim, narra, como uma espécie de ficcionalização de dados que ela colheu pragmaticamente a partir de suas próprias experiências.

As mulheres para a autora – mesmo as que não escrevem ficção -, são punidas pelo sacrifício que são obrigadas a fazer, na Inglaterra, no contexto de Virgínia, ao menos até o século xx, quando elas já tinham conquistado o direito ao voto e podiam trabalhar e possuir bens próprios.

Mary Seton, a personagem encarnada por Woolf para viver o drama de ter de falar sobre mulheres e ficção, vive em uma era de muita evolução, ao menos quando comparada com o século XVI e adiante. Ainda assim, a própria Mary é repreendida por um aluno de uma universidade em que passeia, por ocupar um gramado que só homens podem pisar. Claro que esta é uma metáfora e das mais importantes. Afinal, o que é um escritor sem uma tradição na qual se situar?

Um Teto Todo Seu é um texto que causa estranhamento e muitas vezes nos perguntamos se a autora vai chegar a algum lugar com suas indagações. Mas mesmo o emaranhamento é proposital, já que é praticamente impossível estabelecer uma linha de raciocínio contínua com alguém lhe dizendo onde você pode ou não pisar, se falta um contexto de escritoras no qual estar inserida.

O gato sem rabo está amamentando e pensando no trabalho e pensando no almoço enquanto procura alguém para cuidar dos seus filhos durante uma ausência. Está grávido e preocupado com a criança que irá nascer e morará em uma região violente, neste caso, precisará de mais proteção. O gato sem rabo não pode falar muito. Não tem do que reclamar, afinal, tem tudo. Fique quieto, gato sem rabo! Pegue seu dinheiro e seu teto e se cale. É isso o que nos dizem.


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