Disque Amiga Para Matar | 2ª Temporada

O que achamos da 2ª temporada de Disque Amiga Para Matar?
Netflix/Divulgação

2ª temporada avança corajosamente ainda que sem um propósito definido e acaba perdendo parte do humor nesse processo de descoberta

Dead To Me (ou em português, Disque Amiga Para Matar – ainda não entendi esse título…) apresentou em sua proposta inicial a ideal de uma história de humor cômico-sombrio-sinistro na qual se tenta extrair boas risadas de situações que não seriam nada cômicas se trazidas para o mundo real.

Nos primeiros episódios desta segunda temporada, essa ideia de humor “diferente” até parecia bem planejada. Ainda que o crime que iniciou a história fosse horrível, os tons dosados de comédia estava na maneira como as duas personagens principais lidaram com as situações mais adversas para encobrir o assassinato. Destaque para Jen (Christina Applegate) e com seu pessimismo e mau humor constantes, produziu a tal da comicidade sombria quase que involuntariamente.

Acompanhamos durante a primeira temporada, o espaço do humor cínico passando para as situações estapafúrdias protagonizadas por Judy (Linda Cardelini) na tentativa de esconder da nova amiga que, na verdade, havia participado da morte do marido dela.

Precisamos comentar que, por grande parte do caminho, os roteiros insinuaram que haviam algo de sombrio sobre Judy, mas descobrimos mais tarde que essa era só uma forma de distorcer as nossas expectativas. No entanto, nesta segunda temporada, aprofundamos um pouquinho mais (bem pouquinho mesmo) a questão de ela estar em um relacionamento abusivo com seu ex-noivo e isso teve grandes consequências em como ela lida com os fatos que se apresentam a ela no cotidiano.

Há uma cena, lá pelo quinto episódio, em que Jen está repreendendo seu filho mais velho ao chamar a menina que ele estava saindo de louca depois de ela ter pichado a porta da garagem dele porque descobriu que ele estava saindo com outra menina. Na ocasião, Jen diz que ele deve se desculpar com a menina e que na verdade foi ele que levou ela àquela situação, já que havia cultivado as expectativas dela e depois foi embora sem dar nenhuma satisfação. Essa situação pode nos servir para compreender um pouco mais porque Jen perdoa Judy e a acolhe em sua casa de novo.

Em todo caso, Jen também não parece estar na melhor, quando ela acaba com a vida de uma pessoa num impulso de fúria, a série faz uma ruptura importante e definitiva para a trajetória da personagem.

A morte de Steve (James Marsden) é explorada no início desse segundo ano com uma certa dose de How To Get Away With Murder, mas a criadora Liz Feldman brinca com isso por pouco tempo, esclarecendo para o espectador logo de cara que Jen tem problemas de ira muito sérios e que isso está afetando não só ela mesma, como sua relação com todos que estão em volta. 

Está na morte de Steve a inversão de papeis que os roteiros pretendem. Na primeira temporada era Judy quem escondia seu crime. Agora, Jen não esconde o crime em si, mas esconde a forma e a motivação que a fez cometê-lo. Não há mais espaço para julgamentos de nenhum dos lados. Judy e Jen cometeram crimes ao matar os parceiros uma da outra. Ironicamente, eram eles que as faziam infelizes e a morte deles as persegue por toda a história.

A série desempenha um papel muito importante no fomento de um repertório ficcional que desenha mulheres fora dos padrões que já conhecemos e, apesar de repetir uma série de esteriótipos, a história não deixa de retratar algumas nuances reais da vida das mulheres, tais como a desmistificação de uma maternidade perfeita, a importância da construção de uma rede de apoio que vá para além de um pai e uma mãe, a sexualidade, etc. O trunfo está em discutir essas questões sem parecer forçar a tal da representatividade goela abaixo na história. Os elementos estão lá, mas não deslocados, eles fazem parte do enredo e não poderiam ser deixados de fora sem prejudicar a história central.

Undead to Me

É a morte de Steve que traz à tona um pequeno devaneio que prejudica um pouco a credibilidade da série. A coragem de matar o personagem acaba se esvaziando com o surgimento de um irmão gêmeo nunca antes mencionado, apenas para com isso manter Marsden na série. O ator, aliás, torna sua posição nas séries quase uma tradição de “puxa e solta”. Em Westworld, da HBO, seu personagem também foi mantido na segunda temporada a duras penas. Aqui em Dead To Me, contudo, o ator tem o dobro do aproveitamento. Enquanto Steve era um sociopata, seu gêmeo é doce e terno. Apesar de ser uma virada novelesca, os roteiros vão encaixando a presença do personagem de modo coerente, aproximando-o de Jen, o que é suficientemente complicado para todos os envolvidos.

O fato é que dessa vez as personagens estão lidando com coisas extremamente perturbadoras. Um homem foi morto a sangue frio, o corpo está escondido no freezer da casa e há uma criança e um adolescente vivendo no recinto. Inevitavelmente, as possibilidades de humor vão diminuindo e o tom da história se concentra nas tensões. A cada episódio a situação das duas mulheres vai piorando e quando elas conseguem tapar um buraco, outro mais complicado surge.

Quando tudo parece perdido, uma espécie de deus ex machina surge em forma de empatia e salva a história que parecia completamente sem saída. E é aqui que vemos a importância dos coadjuvantes para impulsionar a história: o novo interesse romântico de Judy dá uma nova camada à personagem, ganhamos minutos tensos com a adição de uma estranha amiga de Henry (Luke Roessler) que, aliás, segue sendo uma das crianças mais adoráveis da Tv.

Com um surpreendente e chocante gancho para uma próxima temporada (que deve acontecer diante da boa recepção da série), Dead To Me (Disque Amiga Para Matar) vai precisar resolver alguns problemas deixados por essa temporada, o que não deixa de ser muito animador. No terceiro ano devemos começar quase do zero, mas com uma lembrança primordial sobre do que se trata a série. 


Disque Amiga Para Marta/Reprodução/Netflix

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